11 junho, 2014

Discurso proferido no “Liceu” da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”. Além de Jorge de Sena, foi orador Vergílio Ferreira, na presença do Presidente Ramalho Eanes, de altas autoridades e de enorme plateia. - 2

Vergílio Ferreira - 10 de Junho de 1977
"Decerto que não é o mando que está no nosso horizonte - e ainda bem; mas não deve estar também a submissão. E se tal submissão é evidente, quando ao nosso destino o detêm mãos alheias, é já menos evidente quando se obscurece a consciência de que o temos, o devemos ter, nas nossas mãos. Porque o não perdemos apenas quando de facto o perdemos, mas ainda quando nos perdemos dele e nele deixamos de nos reencontrar. Não deixa de ser nosso apenas quando ele é já de outrem, mas ainda quando não o reconhecemos para o assumir e continuar. Porque esquecermo-nos de nós é correr o risco de que outros nos encontrem ...  (...) O  mínimo que de nós podemos exigir é assim a sensatez. Parecerá um pouco excessivo, talvez, misturar o nome puro do grande poeta [Camões] à perturbação por que passamos. Porque ela desenvolve-se não apenas ou não bem numa dimensão de idealidade ou de grandeza, mas numa esfera do elementar. É mesmo grave, decerto, ou um pouco despropositado que, esquecidos do elementar, pensemos apenas no que o transcende, que, esquecidos do mais urgente, nos fixemos no que o excede, ainda que a isso julguemos mais importante. É grave assim que a um problema imediatamente económico, nós sobreponhamos um problema de ideologia. Determinados por esquemas ideológicos, enquistados nos termos de uma doutrinação, valorizando acima de tudo a nossa paixão política, ou seja a paixão de nós - porque a política, ou certa política, contra o que possa parecer, é uma paixão solitária - nós recusamo-nos muitas vezes, ou quase sempre, a pensar no que lhe subjaz, nós recusamo-nos a considerar o que a excede, nós recusamo-nos sobretudo a admitir o seu erro, ainda que a realidade a desminta. Como os medievos em face de Aristóteles, se os factos põem em causa a nossa doutrina, tudo podemos admitir, excepto que esteja errada. Porque o que está em causa somos nós. E nós, obviamente, somos exactos como um axioma ..." (15-16)

Vergílio Ferreira "Da Ausência, Camões