22 janeiro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 67

Mais saramaguiana que qualquer outra frase ou lugar comum que associa a criação literária ao acto de ter um filho é a citação que suponho já ter feito, do próprio, de que "Todos somos escritores. Só que alguns escrevem, outros não". Em data próxima, talvez repita pela enésima  vez esse seu sentir que quase desafia e incentiva a que todos escrevam, faltando apenas a quem não escreve a vontade de o fazer. E o deveria, pois eu sempre digo que cada vida, mesmo sem questionar se sim ou não foi intensamente vivida, dava um livro. Mas voltando ao lugar comum, que também não enjeito, ocorre-me (porque ela fez com que me ocorresse) um texto da Gisa (esse alguém que, do outro lado do Atlântico, me quer bem)
"O ato de escrever é voluntarioso. Ou você escreve ou você escreve, não há plano B. Uma vez o texto nascido, e com o mérito de não ter se tornado mais um bolinha com a tarefa de enfeitar o mundo reciclável, ele ganha a maioridade. Assim só lhe cabe abrir a porta, dar-lhe um beijo na testa desejando-lhe boa sorte no mundo lá fora. E lá se vai ele impresso ou virtual para desbravar as temidas fronteiras. O seu filho, o seu filhinho que ainda há pouco você tentava organizar ajudando-o a por-se de pé e dar os primeiros passos, já é maior de idade. Ele saiu de casa com uma missão: procurar novos amigos ou inimigos, despertar paixões ou iras, conceitos ou preconceitos. Você, respira aliviado pois sempre confia na educação que lhe dispensou, nos conselhos que se esmerou em dar e em toda estrutura que lhe possibilitou este voo autônomo, mas ele não é mais seu"
Este texto, é mais ou menos o que Saramago escreveu, não sobre um livro seu, mas sobre o que um filho é e onde afirma que "os filhos são do mundo". Gisa é, talvez sem o saber, saramaguiana, coisa que, aliás, acontece a muitos de nós...

HOMILIA DE HOJE

«Contamos histórias, pois claro. Contamos a nossa própria história, não a da vida, não a história biográfica, mas essa outra que, em nosso próprio nome, dificilmente teríamos a coragem de contar, não por dela nos envergonharmos, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para caber em palavras, e aquilo em que somos geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que não levaria qualquer novidade a esse outro grande e pequeno que é o leitor. Talvez por tudo isto alguns autores, entre os quais me incluo, favoreçam, nas histórias que contam, não a história dos que vivem e vêem viver, mas a história da sua própria memória. Somos a memória que temos, e essa é a história que contamos.»

Citação de Saramago, que abre o livro "Almas Que Não Foram Fardadas", de Rogério Pereira

14 comentários:

folha seca disse...

Caro Rogério
A expressão "saramaguiana" penso que é a primeira vez aqui usada. Gostei e creio que é aquilo que o meu caro é.
Um livro é como uma outra qualquer obra começa-se e acaba-se, creio que no final há sempre mais qualquer coisa do que estava inicialmente programado.
Um abraço caro "Saramaguiano".
Rodrigo

Margarida Costa disse...

Sabe, tenho a certeza fria de que o seu livro será um sucesso... porque sim, porque será! E eu, hei de lê lo, brevemente espero! Parabéns por todo o seu esforço! Beijinho

Gisa disse...

Meu querido amigo

Muito honrada agradeço-te. Jamais, de fato, me pensei "saramaguiana". Os textos de Saramago há muito que me encantam, mas não me pensava assim. Gostei.
Um grande bj no teu coração de alguém que não se importa com a imensidão do oceano para sentir-te perto e querer-te bem.

intimidades disse...

adorava saber escrever o que sinto

nao sei, mas adoro ler o que outros expuseram

Bjinhos
Paula

Fê-blue bird disse...

Meu amigo quando eu crescer quero ser saramaguiana .
Até lá maravilho-me com a sabedoria e a escrita dos amigos, como é o seu caso e o da Gisa.
O seu livro é do mundo a partir do momento em que o partilhou connosco.
Escolheu a citação perfeita.

beijinhos e boa semana

O Puma disse...

Não existem amanhãs sem memórias

Cada um às suas
e se partilhadas melhor
ou talvez não

porque algumas
"nem às paredes se confessam"
Abraço

heretico disse...

são excelentes textos. que li com prazer e apreço...

abraços

Lídia Borges disse...

Esta citação abre com chave de ouro o seu livro, cujo cenário é montado num palco de guerra, mas são de paz os gestos que a memória guardou e o autor, carinhosamente, nos faz chegar.


Um beijo

Ana Tapadas disse...

A maravilhosa abertura do teu Livro!

Beijinho e boa semana.

Carlota Pires Dacosta disse...

Cheguei agora e gostei muito do que vi.
Obrigado Rodrigo por me indicar este blogue.
Beijo

manuela baptista disse...

é sim
essa é a história que contamos

comovente o seu apego a José, Saramago


um abraço

manuela

Graça Sampaio disse...

Esse Saramago que bem conhecia a mente humana! Não foi Nobel à toa!

Grande pensador! Grande escritor!

Maria disse...

É isso. Os filhos são-nos apenas 'emprestados'...
Um prazer ler-te, depois de uns dias ausente.

Beijo.

OceanoAzul.Sonhos disse...

E com um grande texto se abre um grande livro...
Estou a gostar muito de o ler... a si e à sua alma.

Um abraço
cvb