01 janeiro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 64



Ontem foram palavras, mais uma vez, de desassossego. Empreguei-as no dia de aniversário, com um balanço e um desejo. Este negava a palavra "feliz" e em troca, na formulação de votos, eu desejava QUE O ANO DE 2012 SEJA O ANO DA CIDADANIA, DA FRATERNIDADE E DA MUDANÇA. Não vejo outro caminho para chegar à palavra não dita e, assim, a esse estádio que, embora omisso, é desejado. Quanto ao balanço sobre 2011 (ontem apenas aflorado), socorro-me daquele que fiz sobre2010 o qual, por sua vez, é cópia do que Saramago fez sobre 2008. As coisas seguem um ciclo inevitável há muito traçado: 
 HOMILIA DE HOJE
"Valeu a pena? Valeram a pena estes comentários, estas opiniões, estas críticas? Ficou o mundo melhor que antes? E eu, como fiquei? Isso esperava? Satisfeito com o trabalho? Responder “sim” a todas estas perguntas, ou a mesmo só a alguma delas, seria a demonstração clara de uma cegueira mental sem desculpa. E responder com um “não” sem excepções, que poderia ser? Excesso de modéstia? De resignação? Ou apenas a consciência de que qualquer obra humana não passa de uma pálida sombra da obra antes sonhada. Conta-se que Miguel Ângelo, quando terminou o Moisés que se encontra em Roma, na igreja de San Pietro in Vincoli, deu uma martelada no joelho da estátua e gritou: “Fala!” Não será preciso dizer que Moisés não falou. Moisés nunca fala. Também o que neste lugar se escreveu ao longo dos últimos meses não contém mais palavras nem mais eloquentes que as que puderam ser escritas, precisamente essas a quem o autor gostaria de pedir, apenas murmurando, “Falem, por favor, digam-me o que são, para que serviram, se para algo foi”. Calam, não respondem. Que fazer, então? Interrogar as palavras é o destino de quem escreve. Um artigo? Uma crónica? Um livro? Pois seja, já sabemos que Moisés não responderá."
Balanço in Caderno de José Saramago/5 de Janeiro de 2009