08 janeiro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 65

Já fiz, há tempos, uma tentativa de juntar um texto meu ao seu, em plena homilia. Não voltei a fazê-lo pois parecia profanar um espaço que lhe era reservado, que tinha destinado a palavras suas. Passado todo este tempo, reflicto e resolvo-me pelo atrevimento de nem sequer o citar. Tento meter-me na sua alma, no seu sentir, no seu dizer... Na verdade, nem sei porque o faço. Talvez apenas por sentir a sua falta...

HOMILIA DE HOJE (sem qualquer citação)
Fechou-se muita coisa, lentamente, com dores locais de quem ia perdendo fábricas, barcos, searas, pomares, pequeno comércio, escolas, farmácias, urgências e atendimentos. O país reagia, mal se ouvindo as bocas que teimavam em não se fechar, por se terem fechado os acessos ao contraditório e à denúncia. Os telejornais não era a medo que passavam imagens de desgosto em cada rosto e focavam cada entrevistado para evidenciar a fraco argumento da alma que se não cala. As câmaras de reportagem recolhiam as imagens a mandar para o ar à hora de maior audiência, sem inocência, mas com a pedagógica missão de incutir que não vale a pena reclamar. Alguém determinou que era prioritário tornar a dor banal. Feito o treino inicial, passou-se a outra escala e dimensão agora: que se fechem mais fábricas, mais hortas, mais pomares, mais escolas, cresces, infantários, maternidades, urgências e hospitais. Que se fechem teatros, cinemas e óperas. Que se feche até esse ministério a que chegámos a chamar da cultura. Que se fechem universidades, aldeias, autarquias, que se mandem estaleiros para o estaleiro, que se fechem mais, muitas mais empresas, que se fechem carreiras de transportes, linhas de caminho-de-ferro, travessias marítimas e outros caminhos, para os adequar à procura pois é segura a tendência de não haver necessidade de ir a qualquer parte... Tudo tende a desaparecer. Até lá, que se fechem as bocas desses filhos da puta, para que não oiça a data em que anunciarão que o país vai ser fechado.
Rogério Pereira


NOTA : As partes  sublinhadas a bold são a resposta, contidas no próprio texto, a questões que vieram a ser colocadas no espaço dos comentários.