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10 outubro, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 10

Tenho vindo nestas homilias dominicais a dar destaque ao cidadão José Saramago deixando para segundo plano a obra. Contudo, acho que, contrariamente ao que se pensa e ao que por aí se diz, não pode ser separável uma coisa da outra pois a obra só existe por o homem lhe deu vida. Quando vejo a obra é a alma do homem que lá está. Por outro lado, penso que quando Saramago se olhava a si mesmo, se veria na sua duplicidade e com um sorriso que só ele soube descrever (ver aqui)...
Hoje, e porque formalmente é possível, opto por falar da obra. Transcrevo parte de "O Conto da Ilha Desconhecida". Começa por descrever um acto de petição... -
... e a propósito de petição, lembro a minha decisão de passar à acção assinando duas petições. Estão aí ao lado e já contam com adesões tais que, se fosse o rei do conto de Saramago a ter de as receber, te-las-ia que atender:
- a primeira, 32290 pessoas já subscreveram
- a segunda, com 938 assinaturas espera um reforço empenhado...

HOMILIA DE HOJE

"Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré."

Continuar a ler aqui
"O Conto da Ilha Desconhecida", Companhia das Letras - São Paulo, 1998

09 outubro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 52

Ontem passaram 13 anos sobre a atribuição do prémio.
Hoje, completo 52 semanas (um ano) de citações da obra sua.
Entre as duas datas, o céu povou-se com uma "chuva de estrelas"
(mera coincidência por certo, não creio em metáforas da natureza...)

HOMILIA DE HOJE
"Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim, cá estou eu outra vez a sonhar. Como os homens a quem me dirijo."
José Saramago, in "Homilias Dominicais (citando Saramago) - 1"
Post editado por prévio agendamento

08 agosto, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 1

Hoje inicio estas "Homilias". O título pode parecer controverso, mas não é. Quem não ouvia homilias, passa a ter essa possibilidade. Quem a elas assiste, passa a poder te-las em duplicado, se aqui vier todos os domingos. Não pretendo fazer mais nada do que projectar ideias, porque sem elas "não vamos a parte nenhuma".

Foto extraída do sitio da Rádio de Renascença, Rádio Católica Portuguesa, onde me inspirei para as minhas "Homilias", de onde farei a (re)construção das ideias de Saramago, na esperança de, com elas. chegaremos a parte alguma...

HOMILIA DE HOJE
A GÉNESE - Tudo tem uma forma de começar. A génese da coisa humana resulta sempre de um acto comum (comunhão) entre homem e mulher e pode ser lembrada assim: "Para vencer o silenciamento e a omissão, aceitei a ideia da Fernanda () em, eu aqui e ela lá (Na Casa do Rau), editarmos, num dia da semana, um texto alusivo a José Saramago. Será curto, mas forte e profundo, como eram os pensamentos dele. Matéria-prima não nos falta (... ) Junte-se a nós, dedique um post por semana a um pensamento de José Saramago!" A partir de hoje, passo a chamar apóstolos a quem se juntou (ou vai juntando)...
Apóstolo: Eu próprio
A MORTE - Tudo o que na vida existe, se transforma e terá por passar pela fase de morte. A notícia de que a justiça morreu, assusta. Assusta porque, passando por essa fase, toda a vida poderá continuar, mas não lhe poderemos chamar vida humana. Foi por isso que um camponês tocou o sino a rebate. Foram muitos os apóstolos a divulgar as ideias que Saramago foi levar ao Fórum Social Mundial...
A VIDA - A vida sem sonho é sem razão. Vale a pena ter ideias, se nos levantarmos do chão: "Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os animais que correm os campos ou voam por cima deles, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim, cá estou eu outra vez a sonhar. Como os homens a quem me dirijo."
Apóstolo: Folha Seca
DONOS DA VIDA - Há quem em nome da vida espalhe a morte. Se arrogue a acusar ser de pesadelo o sono de outros povos e opte pelo exterminio. Foi assim em Hiroshima e Nagasaki, existem ameaças de que assim pode vir a acontecer neste "Planeta dos Horrores".
DONOS DO MUNDO - "[...]O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico,"
Apóstolo: Susana Serrano
O VERÂO - "O verão é todo ele um apelo, um clamor de festa que se ouve no zumbir dos grandes calores. E quando o sol povoa de margens e ilhas de sombra o oceano escaldante da luz, todos somos um pouco náufragos arquejamos docemente, enquanto o suor poreja como fontes e nos banha de sal."
AS PALAVRAS - Tudo o que eu escrevi até aqui, nesta primeira homilia, teve a palavra como semente: "Daí que seja urgente mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte – ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do acto."
A MAIS BELA FLOR DO MUNDO - Uma criança, interpretando o conto "A Maior Flor do Mundo" não lhe valoriza a dimensão. A flor, a dela, é a mais bela. Talvez como resposta à interrogação de Saramago: “Quem sabe se um dia virei a ler esta história, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?”
Apóstolos: A Ariel e a pequenita Benedita (4º Ano B) pela mão dela

21 outubro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 104 [ FIM]


Com Saramago de frente para o mar, e depois de dois anos a escrever esta página, dou por findo o meu apostolado. Não por ter esgotado as palavras, ou por ter optado por outros caminhos ou por ter preferido dar voz a outras homilias e a outros nomes. Diz-se, tantas vezes, para fazer perdurar as coisas, que é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. É isso, Saramago abandona este espaço dominical, mas permanecerá sempre, na minha escrita, nos meus temas. 
Quem lê Saramago fica com a sua escrita na alma, quem escreve sobre ele fica-lhe na pele... Aconteceu-me

Como última homilia poderia ter escolhido mil outros assuntos, inquietações, desassossegando com coisas do amor ou da morte, mas a escolha recai sobre a Europa, sem que sejam necessárias grandes justificações para a escolha, pois ela nos pesa. Talvez este espaço venha a ser ocupado com o tema Europa e esta homilia final seja a introdução desse outro tema e do retomar do desafio que fiz um dia. Vou pensar. Vou pensar em virar-me definitivamente para o mar...

HOMILIA FINAL
(...) A verdade é que a Comunidade Económica, como a que nasceu na cabeça de Robert Schumann, não é mais do que a ideia de racionalizar as economias dos diferentes países da Europa. A questão central foi sempre a da economia. Ou seja: quem é o senhor, quem é o patrão da Europa. Todos os conflitos, todas as situações complexas que a Europa viveu, até mesmo as chamadas guerras religiosas, tiveram por motivo definir uma economia para cem anos, ou um milénio, como desejou Hitler. 
(...) O mais importante – e eu diria, o mais trágico – é que se tira dos povos o direito de decidirem sobre o seu destino. Claro que nada no mundo é definitivo, e os povos sempre encontram as soluções melhores para os seus problemas. Mas o problema da hegemonia, que parecia resolvido com a Comunidade, não está. O que está ocorrendo agora é o surgimento da potência europeia do futuro, que será outra vez a Alemanha. A Europa será o que Alemanha decidir. 
______________

Já depois de editar esta post, tomei conhecimento e assinei esta petição

16 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 99

Há um homem lá em baixo, e a ajuda merece ser explicada...

Depois do rio de gente que ontem correu, minhas homilias não serão mais o que foram até aqui. Saramago compreenderia que, por palavras suas, desse voz e citasse, além de ele, outros escritores, de outras gerações. Do hoje citado fez Saramago grande elogio. Dia a dia o dito mostra ser merecido:

HOMILIA DE HOJE
- É bem conhecida esta história.
- Qual?
- A de um homem que está no fundo do poço e pede ajuda.
- Como pede ele ajuda?
- Assim, da mesma forma que os antigos pediam: grita e abana os braços.(ele grita e abana os braços, exemplificando o gesto de pedido de ajuda).
- Só isso?
- Além de gritar e abanar os braços, ele olha para cima. Como está no fundo do poço, olha para cima. A pedir ajuda.
- Muito bem. E o salvador desse homem, o que faz? Se há homem para ser salvo há sempre quem apareça para salvar.
- O mais habitual é até existirem mais salvadores do que homens a precisar de ser salvos.
- Pois sim, mas continuemos...
- Continuemos... o salvador desse homem mal ouve os gritos corre para lá e manda uma corda para o fundo do poço.
- Que simpático.
- E depois, lá de cima, o salvador vai dando instruções.
- Instruções sobre?
- Instruções sobre... como quem quer ser salvo deve colocar a corda em redor do corpo de maneira a ser puxado lá para cima pelo seu salvador. Uf.
- No fundo, instruções para ser salvo.
- Eu vou salvar-te mas tens de seguir as minhas instruções - é isto que diz o salvador.
- Muito bem.
- Muito mal. Quem quer ser salvo está tão desesperado que segue à risca as instruções de quem diz que o vai salvar. Nem sequer pensa no que está a fazer. É uma história bem conhecida, já o disse a Vossa Excelência. Os salvadores deste século leram mal o manual de instruções de salvamento.
- Leram mal?
- Sim. Ou digamos, há duas hipóteses: quem estava lá em baixo ouviu mal ou então as instruções foram erradas. O certo é que, quem estava no fundo do poço, seguindo escrupulosamente as instruções, colocou a corda em redor do próprio pescoço e o salvador, lá em cima, puxou... a corda.
- E o que aconteceu?
- Quem estava a precisar de ajuda chega à superfície inanimado, com uma corda ao pescoço. Está pior do que estava. Talvez fosse melhor terem-no deixado no fundo do poço. Sem corda.
- Que horror!
- Exactamente. Daí que, quando eu próprio, aqui presente, me encontro, por qualquer circunstância azarenta, no fundo do poço, fico por lá, caladinho, em silêncio absoluto.
- Não chama por socorro?
- Nunca! Você é louco?! (...)
Gonçalo M. Tavares, in DN-Magazine

27 março, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 33

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Quando há 33 semanas atrás iniciei estas homilias, aceitando ser apóstolo de palavras que considero necessárias - ainda por cima, nobelizadas - estava longe de perceber que, difundindo-as, fazia crescer em mim o prazer de as semear. Aqui e em qualquer lugar. Tenho vindo a fazer, na condição de apóstolo, percursos na blogosfera em imaginária passarola e deixando, onde achei que devia de deixar, coisas escritas, embora nem sempre bonitas, pois na missão de mensageiro ouve-se de tudo e nem a tudo se deve passar ao lado. Numa das vezes, deixei num comentário sobre um poema belo, mas um tanto egoísta - pois há poetas que julgam que nesta coisas de almas o que conta é a sua - deixei o que então chamei "réplica". Aflita, a autora envio-me um mail dizendo-me, pesarosa, que lhe inquinara o poema que considerava muito importante, o poema da sua vida. Percebi-lhe a dor, pois alterara a perspectiva ao rumo de um filho seu (poemas são sempre filhos nossos). Respondi-lhe, apaziguador, que sentira o seu poema como um forte abalo e que não há réplicas sem que antes tenham existido tremores maiores. Que só há pequenos tremores (de alma) se for elevado o grau do tremor inicial. Fazia assim analogia com a ciência da sismologia aplicada ao texto poético e à própria poesia. Recebi por resposta um texto desembaraçado, fazendo-me acreditar passar a ser desejado. A partir daí, não há local que visite onde não deixe o troco: a um pensamento, devolvo outro; a uma piada, respondo com uma ironia; a um poema, respondo com uma rima; a um conto, acrescento um ponto. Acho que Saramago consideraria isto próprio de sujeitos normais, num mundo onde a normalidade vai rareando...

HOMILIA DOMINICAL

"Sei de um poeta normal a quem muitas vezes sucedeu não ser capaz de principiar o poema sem primeiro passar os olhos por versos de outros parceiros na arte, tendo, evidentemente, o cuidado de escolhê-los bons, para não correr perigo de contaminações mórbidas, isto é o que eu julgo. Comparando depois o que ele escrevera com o que tinham composto os colegas, via-se que não ficara o menor sinal de imitação, nenhum vestígio residual do estro alheio, nenhuma certificada metáfora que, transportada para o novo viveiro, ali ficasse a gritar plágio e ladroíce. Este de quem falo, poeta, se não me engana a amizade que lhe tinha, queria só aquecer a inspiração fria ao braseirinho ou alto lume que na página lida ardia inextinguível, ateado por mais criadoras mãos, da espécie prometaica. Se todos aprendemos com todos, não se atirem pedras à inocência".´

José Saramago, in "Páginas Politicas/Sujeitos Normais" - pág. 156

26 junho, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 37

Está escrito no chão. Naquele do qual o levantaremos, se nos levantarmos como ele desejaria

Regresso às minhas homilias. Sinto-lhes a falta. Não para responder a textos provocatórios ao homem, baixando-lhe o ser e o estar ainda que endeusando-lhe a obra. É apenas porque na imposição que aceito para editar, todos os domingos, palavras suas, me obrigo a mergulhar nelas. Preciso delas, ao regressar ao meu escrever. Sei que são palavras que me desassossegam, mas como viver sem o estar? E sendo impossível passar ao lado de este estar desassossegado, que seja ao menos um estar lúcido e interventivo. Para o passar fazer com a percepção de que não está seu corpo junto de nós, transcrevo palavras, ditas um ano depois da sua morte:

"(...) Sim. Dentro de instantes, Pilar, a tua mulher, irá deitar parte do que sobejou do teu corpo ao chão, mas todos nós que aqui estamos sabemos que ao mesmo tempo que te deitamos na terra, não te deixamos na terra, nós todos levantamos-te do chão.

(...) e imaginarmos as figuras que tu mesmo imaginaste. E entrarmos nas tuas razões, e nos teus combates, sobretudo, no edifício magnífico da língua escrita que tu inventaste. Cada vez que acontecer, seja onde for, e em que idioma for que sejas lido, em qualquer parte da terra que seja, tu não serás as tuas cinzas que irão ser depositadas neste jardim, à sombra duma oliveira. Serás sim, os milhares de páginas que escreveste sobre a Utopia e o desconcerto e o concerto do mundo. Sobre os vivos, os mortos, Deus, os reis e os pobres, o elefante e o Cristo. Um mundo acrescentado ao Mundo. E por isso, quando Pilar del Río colocar as tuas cinzas da tua matéria física na terra, só ficaremos tristes por pensar em como o teu corpo foi inteiro, e termos saudades dele.

(...) Quanto a nós, enquanto formos vivos e pudermos recordar-te, recordar-te-emos com se estivesses entre nós. Nós próprios não temos outra eternidade para te dar."

Disse, Lídia Jorge (ler tudo, aqui)

29 agosto, 2010

Homilias dominicais (citando Saramago) - 4

Numa das minhas homilias anteriores (a 2ª editada em 15 de Agosto) um amigo que muito prezo, do blogue "Mar Arável", comentou assim "Conhecendo pessoalmente Saramago duvido que se visse como apóstolo mas tão só como cidadão impoluto português e do mundo". Não tendo tido tal honra, partilho dessa impressão. Contudo, acho que a sua memória não será traída por este nosso movimento de a fazer perdurar no gesto de quem se queira assumir como "embaixador" (significado etimológico da palavra apóstolo) das suas reflexões. Assim o façam respeitando-lhe o sentido. Pena que não possa corrigir-nos eventuais desvios...


O interrogatório do homem que saiu de casa
depois da hora de recolher
começou há quinze dias e ainda não acabou
Os inquiridores fazem uma pergunta em cada
sessenta minutos vinte quatro por dia
e exigem cinquenta e nove respostas diferentes para cada uma
É um método novo
Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre as cinquenta e nove que foram dadas E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual delas seja
e a sua ligação com as outras
Há quinze dias que o homem não dorme nem
dormirá enquanto o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não preciso de tanto
Caso em que terá o seu definitivo sono
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima resposta
Entretanto a tortura continua até que
o médico declare
Não vale a pena

(José Saramago, in O Ano 1993)

A HOMILIA DE HOJE

100 CIDADES PROTESTAM - 100 cidades protestam contra apedrejamento de Ashtiani no Irão. O movimento culmina muitos dias de divulgação dramática de tal desumanidade ocupando, com a imagem quase imaculada de um rosto de mártir, as primeiras páginas da imprensa do mundo tido por civilizado, bem como a abertura dos seus jornais televisivos e radiofónicos. A imagem passa igualmente pela blogosfera e redes sociais em tons hunãnimes de condenação. Não fora isso e Ashtiani teria aquela morte num silencio de pedras... Que nos fique o exemplo. Que o mundo se erga contra as desumanidades. Que a imprensa caia em cima de outros condenados de outros países, que a tortura até à morte sofra pesada perseguição e denúncia (como o fez Saramago tantas vezes e no poema acima). Que 1000 cidades se ergam contra a desumanidade e que a imprensa mobilize as consciências a partir do dia em que Ashtiani cumpra um destino qualquer ele seja. Caso não aconteça, fica-me o sabor do aproveitamento de uma vítima para fins inconfessáveis...

DEVERES HUMANOS - "Depois de milénios de civilizações e culturas, os deveres humanos encontram-se inscritos nas consciências, inclusivamente quando aparentamos ignorá-los ou desprezá-los. Não há que escrever uma Carta dos Deveres Humanos, há que apelar às consciências livres para que a manifestem e a assumam."

José Saramago, in “Soy un grito de dolor e indignación”,
ABC (Suplemento El Semanal), Madrid, 7-13 de Janeiro de 2001


UMA HIPÓTESE DE HUMANIDADE - "Talvez a história do homem seja um enorme movimento que nos leve à humanização. Talvez não sejamos mais que uma hipótese de humanidade e talvez se possa chegar a um dia, e esta é a utopia máxima, em que o ser humano respeite o ser humano. Para chegar a isso se escreveu o Ensaio sobre a Cegueira, para perguntar a mim mesmo e aos leitores se podemos continuar a viver como estamos vivendo e se não há uma forma mais humana de viver que não seja a da crueldade, da tortura e da humilhação, que são o pão desgraçado de cada dia."

José Saramago, in “Escribí para saber si hay una forma más humana de vivir que no sea la crueldad”,
La Voz de Lanzarote, Lanzarote, 25 de Junho de 1996

Outros apóstolos que editaram, na passada semana, textos lembrando José Saramago

"Palavras Daqui e Dali"; "Cirandando"; "Ematejoca Azul"; "Na Casa do Rau" e "Largo das Calhandreiras"

13 fevereiro, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 27

No Fórum Social Mundial de 2003, foi lida uma carta de José Saramago. Li-a há 27 semanas atrás e decidi, na altura, fazer um post salientando passagens dela citadas. Desde essa data me tornei apóstolo de suas palavras e, todas as semanas, faço como o camponês sineiro da cidade de Florença que tocou pela morte de “Ninguém que tivesse nome e figura de gente” pois as Homilias, que escrevo desde então, são “toques a finados pela Justiça, porque a Justiça está morta.
Hoje, se Saramago fosse vivo em corpo, voz e mão, escreveria outra carta ao Fórum Social Mundial que encerrou na passada sexta-feira. Diria provavelmente palavras semelhantes, mas sublinharia que o sino de Florença e o aí acontecido há quatrocentos anos foi, no Cairo, substituído por outra tecnologia fazendo como que um tocar a rebate mobilizando a multidão à praça de Tahrir fazendo também ressuscitar a Justiça e com ela a Democracia. Escreveria ele palavras que Lula da Silva terá escutado, mesmo sem as escrever. Por ainda ecoarem as que escreveu em 2003, Lula terá dito isso que disse e o que anunciou fazer:

HOMILIA DE HOJE

"Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor."

Carta de José Saramago para o 3º Fórum Social Mundial - (texto integral)

22 abril, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 79

Um amigo, contou-me que um dia, na paróquia da sua freguesia - pequena vila alentejana - se ergueu, em plena homilia, e levantou a mão chamando para si a atenção: "Desculpe a interrupção, posso falar?". O padre, escondendo a custo a surpresa e o embaraço do inusitado, disse entre a surpresa dos crentes e alguns sorrisos coniventes com o pedido do intruso: "Não meu filho, este acto litúrgico é sagrado", e prosseguiu com a missa. Lembro a propósito que a igreja, ouve seus crentes, individualmente. Ouve-os em confissão. Fora disso, mal os escuta e não é de querer que quando os escuta ouve o que dizem. A igreja anda ausente, salvo para atenuar os efeitos da ganancia instalada e da ideologia do pensamento único. Entretanto a igreja não deserta da preocupação de ser bem atendida entre os fieis e de capta-los para o seu rebanho, às vezes com algum exagero e com duvidosos resultados, como nos mostra uma amiga nossa, Graça Sampaio (Picos da Roseira Brava)

Saramago parece embaraçar Umberto Eco, encostá-lo à parede (foto Reuters - 1998). 
Mera aparência, o filosofo italiano prefaciou, com agrado, um Caderno de Saramago

Fui buscar Umberto Eco, por duas razões: Uma porque tendo prefaciado Saramago, como o fez, merecia nesta homilia esse destaque (o seu texto merecia uma homilia); a outra, bem mais importante, pala ilustrar o que referi nos posts anteriores sobre o papel dos intelectuais e a sua importância para os povos. "Em recente artigo da Revista Época (no. 246) de fevereiro de 2003, Umberto Eco discorreu sobre a função dos intelectuais e, ressaltou três modelos destes, a saber, o de Ulisses que na Ilíada, assume a função do intelectual orgânico que mais tarde entraria em crise, não antes de inventar o "cavalo de Tróia". O segundo modelo é o de Platão que nomeia os intelectuais como os que possuem ideias próprias como também acredita ser os filósofos capazes de ensinar como governar bem. O último modelo de intelectual é o de Aristóteles que foi tutor de Alexandre , o Grande, e lhe ensinou o que é política, ética, e muitas coisas capazes a habilita-los para o exercício do poder. E acrescentou que o verdadeiro intelectual deve expressar idéias inovadoras por escrito, é como um pedreiro que dedica seu tempo livre a ajudar na reforma da sede do partido." (texto retirado do artigo "A finalidade dos intelectuais na sociedade contemporânea")

Para os meus amigos que, bem hajam, põem o dedo no ar nas minhas homilias (e nelas falam, sem   estorvar o meu acto litúrgico, que reclamo ser tão sagrado como o de um humano padre, junto ao seu altar), deixo estas reflexões prévias, como esclarecimento adicional ao post em que falei de Lobo Antunes e das frustrações da dona Esmeralda, que esperava ver um dia esse escritor convocar uma conferência de imprensa e dizer sobre estas coisas o que realmente pensa.  

Agora... agora passo a palavra ao meu pedreiro:

HOMILIA DE HOJE 
"Abro com duas citações de Aristóteles, ambas extraídas de Política. A primeira delas, curta, sintética, diz-nos que «em democracia, os pobres são soberanos, com exclusão dos ricos, porque são eles o maior número, e porque a vontade da maioria é lei». A segunda, que, começando por anunciar uma restrição ao alcance da primeira, não só, afinal de contas, a alarga e completa, como a si própria praticamente se alcandora à altura de um axioma, esse princípio que, por evidente, não requer, para convencer, o esforço de uma demonstração. Eis o que nos diz a citação segunda: «A igualdade (no Estado) pede que os pobres não tenham mais poder que os ricos, que não sejam eles os únicos soberanos, mas que o sejam todos na proporção do número existente de uns e outros. Este parece ser o meio de garantir ao Estado, eficazmente, a igualdade e a liberdade.» Se não estou demasiado equivocado na interpretação desta passagem, o que Aristóteles nos está a dizer aqui é que os cidadãos ricos, embora participando, com toda a legitimidade democrática, no governo da polis, sempre estariam em minoria nele, pelo simples efeito de uma proporcionalidade imperativa e incontestável. Em algo Aristóteles acertava: que se saiba, ao longo de toda a História, jamais os ricos foram em maior número que os pobres. Mas esse aceno do filósofo de Estagira, pura obviedade aritmética, estilhaça-se contra a dura muralha dos factos: os ricos foram sempre aqueles que governaram o mundo ou que sempre tiveram quem por eles governasse. E hoje, provavelmente, mais do que nunca. Não resisto a recordar-vos, sofrendo com a minha própria ironia, que, para o discípulo de Platão, o Estado era a forma superior da moralidade... Qualquer manual elementar de Direito Político nos informaria que a democracia é «uma organização interna do Estado em que cabe ao povo a origem e o exercício do poder político, uma organização em que o povo governado governa por intermédio dos seus representantes», ficando assim asseguradas, acrescentaria o dito manual, «a intercomunicação e a simbiose entre governantes e governados, no quadro de um Estado de direito». Em minha modesta opinião, aceitar acriticamente definições como esta, sem dúvida de uma pertinência e de um rigor formal que quase tocam a fronteira das ciências exactas, corresponderia, se nos transportássemos ao quadro pessoal da nossa quotidianidade biológica, a não dar atenção à gradação infinita de estados mórbidos, patológicos ou degenerativos de diversa gravidade que é possível, em cada momento, perceber no nosso próprio corpo." 
(continue a ler, Um caderno para Saramago)

26 fevereiro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 72


« ...o auditório que está cheio, com gente ocupando todos os pedaços livres de chão. E vieram para ouvir Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe, com moderação de Henrique Cayatte, falarem sobre o tema “a escrita é um investimento inesgotável no prazer”... » Vieram-me dizer que foi possível passar uma noite inteira nessa cavaqueira. Não será à falta de palavras que não se lhe ouve falar o que lhes seria de esperar que falassem, sobre se o mundo, que já é quase um deserto de ideias, não o virá a ser também de afectos. Desses mesmos que os escritores usaram, gozando o privilégio  de saberem manipular as emoções.
HOMILIA DE HOJE 
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos «slogans» publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.  

03 junho, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 86


"A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça."

Quando, no fim de semana passada, devolvi o saco a uma jovem, ela me sorrio agradecida e me disse - "Obrigada, santo senhor". Aquelas palavras só não foram inesperadas porque não esperava palavra alguma, bastava-me o sorriso. Senti aquele agradecimento como uma censura, ao me acudir à mente dizeres de Dom Hélder Câmara - "Quando dou comida aos pobres chamam-me santo. Quando pergunto por que eles são pobres chamam-me comunista." - E se toda aquela gente se empenhasse em questionar a razão das coisas? e os apelidados de santos procurassem a resposta?

 HOMILIA DE HOJE
"Felizmente há palavras para tudo. Felizmente que existem algumas que não se esquecerão de recomendar que quem dá deve dar com as duas mãos para que em nenhuma delas fique o que a outras deveria pertencer. Assim como a bondade não tem por que se envergonhar de ser bondade, também a justiça não deverá esquecer-se de que é, acima de tudo, restituição, restituição de direitos. Todos eles, começando pelo direito elementar de viver dignamente. Se a mim me mandassem dispor por ordem de precedência a caridade, a justiça e a bondade, daria o primeiro lugar à bondade, o segundo à justiça e o terceiro à caridade. Porque a bondade, por si só, já dispensa a justiça e a caridade, porque a justiça justa já contém em si caridade suficiente. A caridade é o que resta quando não há bondade nem justiça.
José Saramago, em "Outros Cadernos"

13 fevereiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 118 [a seca... que não seca o "cante"]

À hora que escrevo, está chovendo. Pouco, mas chove. E ocorrem-me imagens publicadas nas últimas semanas com reportagens desoladoras da seca, com imagens expressivas de como o cultivo intensivo sorve a pouca água que resta. 

Alentejo terra que já foi do latifúndio, posse dos grandes agrários passou para outra posse, ainda mais sem rosto nem rasto. De uma a outra posse, se ouviu a terra a quem a trabalha. Sonho de pouca dura... o pesadelo parece ter vindo para ficar e as formigas se quedam, de cabeça baixa (se é que ainda há malmequeres).

HOMILIA DE HOJE

 «(...) E então num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra. Para terem trabalho, nada mais, cubra-se de lepra a minha mão direita se não é verdade. E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram, Vimos trabalhar. E isto que aconteceu aqui, aconteceu além, é como na Primavera, abre-se um malmequer do campo, e se não vai logo Maria Adelaide colhê-lo, milhares de seus iguais nascem em um dia só, onde estará o primeiro, todos brancos e voltados ao sol, é assim como o noivado desta terra. Porém, estas brancuras não são, é gente escura, formigueiro que se espalha pelo latifúndio, a terra está cheia de açúcar, nunca se viu tanta formiga de cabeça levantada (...)»

da parte final de "Levantado do Chão"

O vídeo? Dá testemunho de que, seja qual for o futuro, o "cante" ficará na nossa memória, tal como Saramago!

 


08 outubro, 2017

Continuando com o tema Catalunha, me declaro saramaguiano... até ao tutano


Sobre os meus escritos citando Saramago, as "Homilias Dominicais", já por duas vezes lhes anunciei o fim. Uma, depois de 104 semanas a fio. Outra, sob a forma de posfácio. Não é sina, antes necessidade de repor valores, princípios, utopias... e venho trazer à liça o vaticínio da fundação da Ibéria.
E sobre valores, claro o da autodeterminação dos povos e... o não ser rendeiro em terra própria. O resto será o que tiver que ser, leve o tempo que durar.

17 abril, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 36

Descobre-se Saramago, respeitosamente, perante a Maior Flor do Mundo...

No conto assim acontece. Descobriu-se o escritor, não sei se à flor se ao gesto esforçado do menino. Admitindo que a flor seja a Democracia Avançada, tiro eu, também, o meu chapéu a quem correspondeu ao apelo que fiz. 20 sugestões pedi. 20 sugestões (ou mais) apareceram. Se houvesse que dar destaque eu não hesito, por isto assim dito: "Guardadas que estão as sementes/ da nossa flor/ viva/ um dia serão de novo caminhos de sonho/nas mãos de outras crianças".

Assim, acabam os meus amigos de cometer um gesto que espero que se converta em acto politico:

HOMILIA DE HOJE

"Quando dizemos que é um resultado importante o viver em democracia, dizemos também que é um resultado mínimo, porque a partir daí começa a crescer o que verdadeiramente falta, que é a capacidade de intervenção do cidadão em todas as circunstâncias da vida pública. Ou seja, fazer de cada cidadão um político. A liberdade de imprensa, a liberdade de organização política é o mínimo que podemos ter, porque a partir daí começa a riqueza espiritual e cívica do cidadão autêntico."


José Saramago. Una mirada triste y lúcida, Algaba Ediciones, Madrid, 2007In José Saramago nas Suas Palavras

AVISO: Pela riqueza de alguns dos comentários (que pode ver aqui), farei na próxima semana posts alusivos

01 julho, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 90


Por vezes os gestos nos traem e mostram,
não o que queremos esconder, mas o que não é urgente mostrar...


Dizia Saramago não ser um ateu total e todos os dias procurar um sinal de Deus, sem  infelizmente o encontrar. Não fosse a palavra "infelizmente" e diria estar-se perante mais uma sua ironia. Mas está lá a sua lamentação. Contudo não chega para provar que Saramago nos enganava. Acho que sua crença era no Homem e a sua lamentação, essa, era dispersa por tudo o que é adverso ao Homem. Até o próprio homem. 
Tive grandes hesitações na escolha da homilia de hoje. Não por falta de tema, mas pelo seu excesso (Saramago é um interminável rol de actualidade). A escolha acaba por recair no desconforto da nossa vivência neste mundo, no desconforto dos comportamentos de nós humanos e porque decidi escrever uma "história impossível" e submete-la a concurso. É uma história saramaguiana,  Levanto uma ponta do véu, antecipando que é uma história sobre esses desconfortos e sobre a ocorrência de uma profunda "Metamorfose" no universo. É uma metáfora. Aí escrevo que nenhum Deus aceitaria confessar que se enganara em sua obra, emendando o que estava mal e refazer tudo de novo. Até porque permitiu que em todos estes séculos falassem de si como se fosse infinitamente bom deixaram-lhe pouca humildade para confessar o erro e, assim, o reparar.

HOMILIA DE HOJE 
"Há uma pergunta que me parece dever ser formulada e para a qual não creio que haja resposta: que motivo teria Deus para fazer o universo? Só para que num planeta pequeníssimo de uma galáxia pudesse ter nascido um animal determinado que iria ter um processo evolutivo que chegou a isto?"
José Saramago em entrevista a "O Público"

23 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 100



Já não estar, estando...

Não é a primeira vez que uma amiga me influencia na escolha de uma homilia. Não falarei do que ela fala, não falarei do fado, enquanto canção, mais do que lá lhe disse (Minha Alma se comove com o trinado, Meu Contrário atende ao conteúdo, e Eu fico preso e mudo, atento, ao lamento de um fado). Não repetirei que há vozes que lhe dão um sentido querido e que é ilustrado pelo video. É que o momento vivido exige que se fale do fado como destino, e neste, só há uma coisa certa que chega a hora incerta. No resto, enquanto a morte não chega, o destino será o que um homem fizer para que seja, com persistência e capacidade de espera, mais do que se pensa... 

HOMILIA DE HOJE
"Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte." 
José Saramago

13 maio, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 83


Eu, Meu Contrário e Minha Alma, perscrutam a multidão procurando Ricardo Reis, em vão. 

Questiono Meu Contrário para em seu juízo me explicar e esclarecer não a razão da fé mas sobre as motivações da adesão das massas ao fenómeno religioso, pois que em tempos afirmei que havia quem com isso beneficiava. A resposta foi curiosa e deixou-me intrigado: "As coisas da fé, afundam-se nos seus próprios mistérios. Depois de Marx ter falado das consequências de ser a fé o ópio do povo, pouco mais de interessante se poderá acrescentar". Insatisfeito com tal resposta, consultei a Minha Alma, com a mesma pergunta, ficando igualmente intrigado com a resposta vinda desse lado: "Há almas que se prestam a tudo, tanto mais quanto mais o corpo lhes sofre." Percebi que pouco adiantava prolongar aquele diálogo, e resolvemos, os três, procurar Ricardo Reis para saber a sua própria motivação para se misturar naquela multidão:

HOMILIA DE HOJE
Este é o lugar. A camioneta pára, o escape dá os últimos estoiros, ferve o radiador como um caldeirão no inferno, enquanto os passageiros descem vai o motorista desatarraxar a tampa, protegendo as mãos com desperdícios, sobem ao céu nuvens de vapor, incenso de mecânica, de fumadouro, com este sol violento não é para admirar que a cabeça nos tresvarie um pouco. Ricardo Reis junta-se ao fluxo dos peregrinos, põe-se a imaginar como será um tal espectáculo visto do céu, os formigueiros de gente avançando de todos os pontos cardeais e colaterais, como uma enorme estrela, este pensamento fê-lo levantar os olhos, ou fora o barulho de um motor que o levara a pensar em alturas e visões superiores. Lá em cima, traçando um vasto círculo, um avião lançava prospectos, seriam orações para entoar em coro, seriam recados de Deus Nosso Senhor, talvez desculpando-se por não poder vir hoje, mandara o seu Divino Filho a fazer as vezes, que até já cometera um milagre na curva da estrada, e dos bons, (...) 
Ricardo Reis vai a Fátima - Excerto de "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago (continuar a ler)

31 março, 2026

A OBRA DE SARAMAGO DEIXOU DE SER DE LEITURA OBRIGATÓRIA NA ESCOLA... ASSIM, EI-NOS EMPURRADOS PARA A CAVERNA!

Isto... isto mexe muito comigo! 
Durante dois anos, todos os domingos (no meu blog) escrevia "Homilias Dominicais (citando Saramago)" e isso me obrigou a ler quase toda a obra dele. Na peça de teatro que escrevi para crianças o seu livro ilustrado ("A Maior Flor do Mundo") é levado ao palco. E mais: em criança, vivi num quarto com toda a minha família (Saramago, também); residi na rua Carrilho Videira (Saramago, também); em jovem, frequentei a Escola Afonso Domingues (Saramago, também); nessa escola tirei o curso de Serralheiro Mecânico (Saramago, também); trabalhei num jornal (Saramago, também); cheguei tarde à escrita (Saramago, também); sou militante de um Partido (Saramago, também)... Portanto, estamos sendo empurrados para a tal caverna de que Saramago aqui fala...