27 março, 2011

Homilias dominicais (citando Saramago) - 33

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Quando há 33 semanas atrás iniciei estas homilias, aceitando ser apóstolo de palavras que considero necessárias - ainda por cima, nobelizadas - estava longe de perceber que, difundindo-as, fazia crescer em mim o prazer de as semear. Aqui e em qualquer lugar. Tenho vindo a fazer, na condição de apóstolo, percursos na blogosfera em imaginária passarola e deixando, onde achei que devia de deixar, coisas escritas, embora nem sempre bonitas, pois na missão de mensageiro ouve-se de tudo e nem a tudo se deve passar ao lado. Numa das vezes, deixei num comentário sobre um poema belo, mas um tanto egoísta - pois há poetas que julgam que nesta coisas de almas o que conta é a sua - deixei o que então chamei "réplica". Aflita, a autora envio-me um mail dizendo-me, pesarosa, que lhe inquinara o poema que considerava muito importante, o poema da sua vida. Percebi-lhe a dor, pois alterara a perspectiva ao rumo de um filho seu (poemas são sempre filhos nossos). Respondi-lhe, apaziguador, que sentira o seu poema como um forte abalo e que não há réplicas sem que antes tenham existido tremores maiores. Que só há pequenos tremores (de alma) se for elevado o grau do tremor inicial. Fazia assim analogia com a ciência da sismologia aplicada ao texto poético e à própria poesia. Recebi por resposta um texto desembaraçado, fazendo-me acreditar passar a ser desejado. A partir daí, não há local que visite onde não deixe o troco: a um pensamento, devolvo outro; a uma piada, respondo com uma ironia; a um poema, respondo com uma rima; a um conto, acrescento um ponto. Acho que Saramago consideraria isto próprio de sujeitos normais, num mundo onde a normalidade vai rareando...

HOMILIA DOMINICAL

"Sei de um poeta normal a quem muitas vezes sucedeu não ser capaz de principiar o poema sem primeiro passar os olhos por versos de outros parceiros na arte, tendo, evidentemente, o cuidado de escolhê-los bons, para não correr perigo de contaminações mórbidas, isto é o que eu julgo. Comparando depois o que ele escrevera com o que tinham composto os colegas, via-se que não ficara o menor sinal de imitação, nenhum vestígio residual do estro alheio, nenhuma certificada metáfora que, transportada para o novo viveiro, ali ficasse a gritar plágio e ladroíce. Este de quem falo, poeta, se não me engana a amizade que lhe tinha, queria só aquecer a inspiração fria ao braseirinho ou alto lume que na página lida ardia inextinguível, ateado por mais criadoras mãos, da espécie prometaica. Se todos aprendemos com todos, não se atirem pedras à inocência".´

José Saramago, in "Páginas Politicas/Sujeitos Normais" - pág. 156