18 março, 2011

A descoberta do prazer de ler palavras vagabundas...

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Nem todas as palavras arrumadas em forma de texto são palavras sérias, poéticas ou vagabundas. Nem todas resultam de digressões de vida ou da imaginação e nos trazem saberes ou paixão. Mas as dos livros quase sempre merecem ser lidas e, assim, um dos actos mais bonitos da vida é fazer nascer o gosto pela leitura ou esse gosto simplesmente acontecer por observarmos, nos outros, o amor pelo saber. A mim aconteceu-me cedo, antes mesmo de apreender a ler e foi assim:

Ia-mos partir para a quintinha dos meus avós. Minha mãe fez daquela vez o que sempre fazia, comprar café e cigarros para levar. Na compra, contristado o empregado declarou não ter papel próprio para embrulhar, só jornal. E foi em papel de jornal feito o embrulho e cuidadosamente guardado num saco de ráfia, tipo esteira, como tantos havia nos anos cinquenta. Chegados, a dada altura foi a hora de distribuir os singelos presentes. Café para dois e tabaco para meu avô. O sorriso deste foi mais largo que o de costume e, logo que encontrou um momento, meu avô escolheu um canto, acendeu uma vela, e nesse preparo se deu ao regalo de ler aquele pedaço de jornal. Lia com mais prazer do que o de fumar os cigarros que acabara de receber. Lia com o mesmo ar de quem rezava, embora nunca o tivera visto a fazer tal. A partir dessa data meu avô nunca passou sem um jornal, pois minha mãe passou-os a levar, sempre. Na época, e até uns anos muito depois, os jornais tinham esse encantamento que hoje só raramente podemos encontrar. Ficou-me daquela imagem e da figura do meu avô, naquilo de que dele já contei, um prazer enorme de ler e agora, também, de escrever…

Vem tudo isto a propósito do blogue da Jussara, “Palavras Vagabundas” e do que aí faz. A descoberta deveu-se a uma circunstancia que já não lembro mas que me deixou aí pregado quando li um comentário dum seu amigo posto em destaque, no alto do seu layout:

"Quanto ao o que ler, continuo com o conselho da Jussara - 'leia tudo que puder'. Ela nunca me falou nisso. Mas sempre foi assim, caso encontrasse um pedaço de jornal, cheirando a peixe, na calçada, punha o pé em cima e lia. Sem preconceito. Aprendi com ela."

Aprenda também com Jussara ou, se quiserem, com o meu avô...