26 fevereiro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 72


« ...o auditório que está cheio, com gente ocupando todos os pedaços livres de chão. E vieram para ouvir Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe, com moderação de Henrique Cayatte, falarem sobre o tema “a escrita é um investimento inesgotável no prazer”... » Vieram-me dizer que foi possível passar uma noite inteira nessa cavaqueira. Não será à falta de palavras que não se lhe ouve falar o que lhes seria de esperar que falassem, sobre se o mundo, que já é quase um deserto de ideias, não o virá a ser também de afectos. Desses mesmos que os escritores usaram, gozando o privilégio  de saberem manipular as emoções.
HOMILIA DE HOJE 
As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos «slogans» publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.