05 fevereiro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 69


Trilogia do meu ser: tentativa, insubordinada, de tentar explicar, somos "o quê?" 

Caiu bem, em quem meu leu - julgando porventura tratar-se de figura de estilo - a trilogia de personagens com que me apresento e faço depois desenrolar a narrativa desse meu primeiro livro. É redutor tal interpretação, mas sofrível se comparada aquela outra que toma MEU CONTRÁRIO como um opositor, não sei se ao meu EU se a MINHA ALMA. É ignorância ou distracção não perceber que o que fazemos resulta, em cada acto, da conivência dos três. Mas ainda pior, é tomar o entendimento de que MINHA ALMA é o meu ser espiritual, no sentido metafisico do ser. Nada disso. Se me permitem, se permitem ao autor (em adicional ao seu escrito) aconselhar sobre o melhor entendimento a dar, gostaria que vissem em MINHA ALMA aquela parte de mim que é sensível e sensorial, onde reside a parte substancial dos afectos, embora não a totalidade (somos mais complexos que essa divisão geométrica: dum lado a razão e do outro o sentimento). Outro aspecto: a MINHA ALMA é tangível, localiza-se entre zonas bem definidas do cérebro, e desenvolve-se em tecidos diferentes sendo o mais palpitante um músculo. O músculo do coração. Outra precisão: MINHA ALMA é, por tudo isso, mortal. É até, será, julgo, a primeira a morrer. Na sequência da morte, seguir-se-á MEU CONTRÁRIO e só então EU, que acabarei por morrer com o desgosto de os ver desaparecer... Com estas locubrações contrario meu mestre, que aceitava, sobre o assunto, deixar páginas em branco.

HOMILIA DE HOJE
"A pergunta “quem és tu?” ou “quem sou eu?” tem uma resposta muito fácil: cada um conta a sua vida. A pergunta que não tem resposta é outra: “que sou eu?”. Não “quem” mas sim “quê”. Aquele que se faça essa pergunta irá enfrentar-se com uma página em branco, e não será capaz de escrever uma única palavra."
In José Saramago nas Suas Palavras