16 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 99

Há um homem lá em baixo, e a ajuda merece ser explicada...

Depois do rio de gente que ontem correu, minhas homilias não serão mais o que foram até aqui. Saramago compreenderia que, por palavras suas, desse voz e citasse, além de ele, outros escritores, de outras gerações. Do hoje citado fez Saramago grande elogio. Dia a dia o dito mostra ser merecido:

HOMILIA DE HOJE
- É bem conhecida esta história.
- Qual?
- A de um homem que está no fundo do poço e pede ajuda.
- Como pede ele ajuda?
- Assim, da mesma forma que os antigos pediam: grita e abana os braços.(ele grita e abana os braços, exemplificando o gesto de pedido de ajuda).
- Só isso?
- Além de gritar e abanar os braços, ele olha para cima. Como está no fundo do poço, olha para cima. A pedir ajuda.
- Muito bem. E o salvador desse homem, o que faz? Se há homem para ser salvo há sempre quem apareça para salvar.
- O mais habitual é até existirem mais salvadores do que homens a precisar de ser salvos.
- Pois sim, mas continuemos...
- Continuemos... o salvador desse homem mal ouve os gritos corre para lá e manda uma corda para o fundo do poço.
- Que simpático.
- E depois, lá de cima, o salvador vai dando instruções.
- Instruções sobre?
- Instruções sobre... como quem quer ser salvo deve colocar a corda em redor do corpo de maneira a ser puxado lá para cima pelo seu salvador. Uf.
- No fundo, instruções para ser salvo.
- Eu vou salvar-te mas tens de seguir as minhas instruções - é isto que diz o salvador.
- Muito bem.
- Muito mal. Quem quer ser salvo está tão desesperado que segue à risca as instruções de quem diz que o vai salvar. Nem sequer pensa no que está a fazer. É uma história bem conhecida, já o disse a Vossa Excelência. Os salvadores deste século leram mal o manual de instruções de salvamento.
- Leram mal?
- Sim. Ou digamos, há duas hipóteses: quem estava lá em baixo ouviu mal ou então as instruções foram erradas. O certo é que, quem estava no fundo do poço, seguindo escrupulosamente as instruções, colocou a corda em redor do próprio pescoço e o salvador, lá em cima, puxou... a corda.
- E o que aconteceu?
- Quem estava a precisar de ajuda chega à superfície inanimado, com uma corda ao pescoço. Está pior do que estava. Talvez fosse melhor terem-no deixado no fundo do poço. Sem corda.
- Que horror!
- Exactamente. Daí que, quando eu próprio, aqui presente, me encontro, por qualquer circunstância azarenta, no fundo do poço, fico por lá, caladinho, em silêncio absoluto.
- Não chama por socorro?
- Nunca! Você é louco?! (...)
Gonçalo M. Tavares, in DN-Magazine