09 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 98

«Há esperanças que é loucura ter. 
Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida.» (ver aqui)

Enquanto, num imenso palco, fazemos demonstração do nosso esforço em sermos verdadeiramente humanos, muitos ainda nos olham surpreendidos. Julgam que somos a imitação de uma vida impossível de ser vivida. Essa foi a sensação em dois dias de intensa estadia pela cidade que cabe numa quinta. Cidade erguida em muitos dias de trabalho militante, num enorme estaleiro a que eu já chamei de universidade de todos os saberes. Cidade-palco desse esforço colectivo que fazemos para demonstrarmos como somos. Cidade que se abriu na sexta feira passada. Não entro em detalhes sobre a tarefa que me coube de contactar visitantes e sobre o que lhes ouvi depois de umas, poucas, interpelações. O que ouvi foram palavras e sobre o que vale a pena falar é do olhar. Isso, falar de olhares. Quase todos reflectiam surpresa: surpresa de tornarmos a cidade possível; surpresa por insistirmos em construí-la; surpresa pela persistência; surpresa pela convicção e crença. Mas as surpresas aconteceram também num outro sentido, pois eu próprio me confesso surpreendido: a maioria aceitou passar-nos seus endereços de mail e estarem receptivos a receber informação do Partido. 
Faço minhas as palavras de Saramago: "Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas eu já teria desistido da vida".

HOMILIA DE HOJE
"Feito o arado que rasga a terra, a passagem do tempo deixa sulcos na alma e no rosto.
“As viagens sucedem-se e acumulam-se como as gerações; Entre o neto que foste e o avô que serás, que pai terás sido?”
A única coisa que nós temos de fato é a vida. E com ela podemos fazer tudo, ou nada.
Pais, filhos e netos.
Buscar uma experiência de significação, trilhar a senda do auto-aperfeiçoamento.
A vida é um instante, um sopro.
Quantas gerações já vieram e se foram,
quantas ainda virão e igualmente passarão…
Há quem sustente que é o amor das mães que mantém o mundo em seu eixo.
Memórias poéticas e afetivas.
Os pequenos gestos e instantes que se vestem de beleza e ternura o tempo.
O ato de observar é a única chave que abre a porta dos mistérios.
A paisagem de fora, a vemos com os olhos de dentro.
A paisagem é um estado de alma.
Na realidade, o que vemos está em nós.
Não vemos o que vemos, vemos o que somos…
“Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara.”
Cultivar a quietude do espírito
como potência de transformação.
Ter um olhar capaz de discernir a beleza invisível.
A filosofia oriental nos ensina que
a mais bela imagem não tem forma.
Resgatar a beleza, a poesia e a espiritualidade
capazes de suavizar a nostalgia do Absoluto.

Cativar a via do Silêncio
dentro de nós.
Esta existência terrena é uma
oportunidade de despertarmos
da letargia e do sono.
Esta existência terrena
é a infância da Eternidade.
Uma oportunidade para nos
aproximarmos da Pura Luz
que habita nossa finitude.
Felizes os que aproveitam
com sabedoria a preciosa
aventura que é o existir.
Feliz o olhar capaz
de discernir a beleza
do invisível...

José Saramago, "Beleza Invisível" via facebook
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