14 setembro, 2012

Sondagem: Qualquer ligação entre o texto e a imagem... é mera especulação. (A esta hora o pessoal está a ver a "Gabriela" na televisão)

Excelente oportunidade para o "coiso" brilhar, depois de (com cuidado) ouvir o Conselho de Estado...
PÁTRIA 
Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira a falsificação, da violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

Guerra Junqueiro, “Pátria”, 1896.

9 comentários:

  1. Não vejo telenovelas.
    Acabei de ver o Body of Proof e o House (medicina é comigo).
    E aqui estou para dizer que as sondagens começam a assustar os governantes.
    O descrédito paga-se e a vingança, sempre ouvi dizer, serve-se fria.

    Bom fim de semana.

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  2. Um povinho que parece mais uma pescadinha de rabo na boca, muda de levar com o pau para levar com a marreta...
    Já estou a ver o Portas a afiar as facas para ver se ainda se casa com o Seguro porque desde que cheire a tacho aquele tem conversa para os dois lados.

    Bjos

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  3. ah... e já me esquecia... não vejo novelas nem futebol... tento preservar a sanidade do meu cérebro lol

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  4. Não estou aqui:) é raro ver televisão...nem sabia que estava a dar a Gabriela...

    Rogério queres cravo ou canela?
    o cravo está a ficar murcho..acho que prefiro CAi NELA:)

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  5. Não sei traduzir o "share" em milhões de televisões sintonizadas, nem em milhões de pessoas embasbacadas... fica a informação para quem saiba:

    PROGRAMA AUDIÊNCIA (%) SHARE (%)
    1º Gabriela (SIC) 17,4 36,4%
    2º Dancin’ Days (SIC) 16,9 34,1%
    3º Jornal da Noite (SIC) 13,5 31,3%
    4º Louco Amor (TVI) 13,4 27,2%
    5º O Astro (SIC) 12,4 28,7%

    (dados de ontem)

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  6. Serão as telenovelas o ópio do povo?

    Avante Camarada! A boa estrada sempre aparece depois da má terminada.

    Um beijo.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. (...)
    Existe no entretanto uma fera, um abutre,
    Um monstro pavoroso, hediondo, que se nutre
    De lágrimas e sangue: é mais feroz que a hiena;
    Não conhece remorso e não conhece pena;
    Insensível à mágoa, às súplicas, à dor;
    Forte como um juiz; cego como o terror:

    É inviolável: mata e fica sem castigo:
    Ainda hoje o Estado é o seu melhor amigo.
    Pois bem; eu que defendo o monstro que assassina
    Contra o braço da forca e contra a guilhotina,
    Eu que proscrevo o algoz, eu exigi-lo-ei
    Para enforcar somente esse bandido - a Lei.

    Guerra Junqueiro

    -

    Como se vê, caros amigos/as, já Guerra Junqueiro, ao tempo do princípio do séc. xx se insurgia contra a forma displicente e inumana como as Leis são feitas e pior executadas.

    A Lei não pode ser uma arma de tortura contra o cidadão comum! ...

    Um instrumento de regulação da vida em sociedade, sim, nunca um instrumento colocado nas mãos do algoz para o usar a seu bel-prazer.

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  9. Isto é mesmo o mais difícil de aceitar.


    Um beijo

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