02 setembro, 2012

Homilias dominicais (citando Saramago) - 97

Ninguém dispensa a sua dose de droga diária e a reacção é de toxicodependência...

À semelhança com o que se passa com o tabaco, escrevi um dia, «Todos os jornais deviam em cabeçalho (ou rodapé) anunciar em caixa alta: "Ler esta porcaria mata a cidadania" ou então "Não procure o omitido, publicá-lo pode produzir outro resultado"...»
Como ninguém dispensa a sua dose de droga diária, os jornais e telejornais lá se vão consumindo. Se é verdade que há leitores que procuram drogas leves (os chamados jornais de referência) ou se limitam a ler parangonas de primeira página, não deixa de ser observável que o comportamento dos leitores é a de verdadeiros toxicodependentes: sabem que lhes faz mal, mas não abandonam o consumo...
Quanto à segunda frase, que fala em omissão, ela faz-me recuar à expressão de Goebbels que dizia "uma mentira mil vezes repetida passa a ser uma verdade" indesmentível, ocorrendo-me esta outra: uma realidade mil vezes omitida é uma realidade que não existe. E se é difícil apanhar a mentira, contrariando que é mais difícil apanhar um coxo que um mentiroso, é impossível conceber uma realidade que permanece escondida. À luz das drogas actuais, Goebbels era um primário passador...
Mas para haver mentira nos jornais é necessário que se reconheça a existência de jornalistas mentirosos. E para que exista omissão, é necessário que existam jornalistas que escolham e seleccionem o que deve ser omitido... Mas então, onde está a tal independência dos jornalistas?

HOMILIA DE HOJE
"...de vez em quando se reivindica a sonhada independência do jornalista. Trata-se de uma ficção tecida de boas intenções, com a qual se pretende amortecer os efeitos negativos da consciência infeliz no espírito dos profissionais da informação. Não sendo nenhum trabalho realmente independente, o dos jornalistas não podia ser excepção. Entre o chefe, que está ao lado, e o patrão, tantas vezes invisível, o jornalista leva o melhor da sua vida a apalpar o terreno instável que o sustém e a perguntar-se se estará fora ou dentro da verdade do dia. Creio que mais útil que o sempiterno e frustrante debate sobre uma mirífica independência do jornalista, seria examinar as franjas de independência relativa que lhe são consentidas, sem esquecer que eventuais aplausos internos dependerão, em muitos casos, mais de factores extra-jornalísticos do que da exactidão de uma informação ou de uma análise. O camaleonismo jornalístico, peste maior do nosso tempo, tem no que acabo de referir algumas das suas mais nefastas raízes. O cidadão comum expressa as opiniões do seu tempo, certos jornalistas talvez preferissem não ter nenhuma. Ser-lhes-ia menos doloroso que serem obrigados a ter aquela que a outros convém. 
Saramago, o jornalismo e a quadratura do círculo, in "Clube dos Jornalistas"