25 abril, 2013

Em 25 de Abril de 2013, foi assim:


Take one - cena da espera
O sol estava forte. A praça praticamente vazia. Que se passa?  Olhava, olhava, e pouca gente à volta encontrava. Há cansaço? Há desmobilização por descrença? A gente, mesmo que se sinta "água mole em pedra dura" cansa-se dessa  figura? Esperámos. O pano que segurávamos dizia dizeres de vontade. O sol abrasava e nós esperávamos. Após mais de uma hora de espera, avançámos. Meia centena de metros e estávamos com a protecção das acolhedoras sombras. Como pássaros saídos das árvores, ou como gnomos saídos de tudo o que era lado, engrossou-se a avenida: "25 de Abril sempre!"... não sei de onde apareceu, de repente, tanta gente.
Take two - cena do desfile
Ia o desfile desfilando. As mulheres sorrindo. As crianças iam e vinham, correndo. Os homens conversando. De quando em quando uns interrompiam para dar as palavras de ordem. Outros não interrompiam nada, porque só nisso se concentravam: "O governo e o Cavaco, são farinha do mesmo saco". As instalações sonoras eram sonoras. Os sons cruzavam-se e tropeçavam na voz intemporal do Zeca: "...venham mais cinco". Eu desfilava. Vi o João. Não esperava ver o João. Ele certamente não se surpreendeu por me ver. Não sei qual de nós estendeu primeiro a mão, se eu, se o João... Foi um bom aperto de mão!
Take three - cena do regresso
1. “O cantor” - Um pássaro foi atingido com um tiro na asa direita e passou por isso a voar na diagonal. Mais tarde foi atingido na asa esquerda e viu-se obrigado a deixar de voar, utilizando apenas as duas patas para andar no chão. Mais tarde foi atingido por uma bala na pata esquerda e passou por isso a andar na diagonal. Uma outra bala atingiu-o, semanas depois, na pata direita, e o pássaro deixou de poder andar. A partir desse momento dedicouse às canções.” Muitas pessoas estão a transformar-se em cantores — mas não por vontade própria. E isto é a primeira parte de uma tragédia.
2. Em 2013, nada tira mais liberdade do que o desemprego. A História mostrou, infelizmente vezes de mais, como a taxa de desemprego e a democracia estão ligadas. “O desempregado com filhos” “Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha fi lhos, aceitou. Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego. Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha fi lhos, aceitou. Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego. Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha fi lhos, aceitou.” (de “O Senhor Brecht”) - Gonçalo M. Tavares, hoje, no Público
Take four - prelúdio para cena seguinte
O primeiro de Maio será o que queiramos que seja. Que o João apareça...

7 comentários:

  1. texto primoroso.

    é verdade, o maior "cala a boca" do mundo é a falta de condição para subsistir. em nome do sustento, toda a liberdade se mata, todo o limite se ultrapassa...

    os governos pensam nos grandes números, sequer enxergam o sofrimento de cada número. triste, mundo triste

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  2. Porque o desemprego é uma arma é que esta corja a está utilizando massivamente, para que as pessoas , já em desepero de causa, aceitem tudo !

    Convido-te a passares pelo meu facebook.

    Bons sonhos.

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  3. Oxalá apareça pelo menos o João.
    Obrigado por teres desfilado e suportado o calor.
    Beijão

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  4. Cheguei atrasado porque andei à procura do João, o outro...

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  5. pobre cantor, mais a sua tragédia...

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  6. Esta perspectiva é assustadora.
    O homem despojado de tudo quanto o pode tornar digno transforma-se em animal de carga. Aceita a escravidão, julgando ver nela, uma dádiva...




    Um beijo

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  7. Que se façam das palavras armas de arremesso...e com elas exijamos a nossa dignidade de volta...

    Abraço e bom fim de semana!

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