26 abril, 2013

Lídia, quero que saiba: seu livro faz parte do "meu edifício". É uma peça da minha janela. Vejo o mundo, através dela...


Com muitos livros se constroem edifícios. Eu construí o meu e um dia destes mostrei os meus alicerces... Faço questão em ir, sempre que me ocorre ou quero assumir, mostrar outros livros que me dão paredes, umbrais de portas, telhado, vidraças e outras peças de tantas e tantas que me dão estrutura. 

Quando soube que a poesia da Lídia tinha sido premiada, fui a correr dizer-lhe que seu livro faz parte desse meu edifício, que é uma peça da minha janela e que vejo o mundo através dela. 

Dei-lhe os parabéns. E ei-la, mulher inteira, desvendado-nos o nome e o rosto, disposta a não continuar a esconder-se atrás da sua obra. Parabéns Lídia. 

"Lidos os jornais, embolam-se-me as ideias na boca. Que querem? Não tivesse eu bebido só água e… A chuva lá fora, descarta-se rapidamente da poesia. Não passa de decoração dispensável e o frio, cá dentro, vem da falta de uma porta de saída desta sórdida realidade: o caos travestido de ordem. Tento escrever. Abro o meu caderno e a página que devia ser branca e lisa como sempre é, toma-se de obscuras tonalidades, de rugosas texturas. Um lodaçal autêntico, gente que passa abstracta, sombras, medos, desassossegos, ameaças, algas que se entrelaçam, contorcido desespero e, de repente, um crocodilo aberrante sai, em corrida desenfreada pelo caderno afora. A cauda viril, ameaçadora, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. - Monstro – cogito - quem te deu aqui entrada? Em lágrimas, o malvado, ri de mim, grosseiro, pleno de impenetrabilidade e falsa sensaboria. 
E, para além desta negra página, deste crocodilo, nenhum outro animal, palavra ou frase se adivinha nas folhas do meu caderno, hoje, depois de lidos os jornais. Fecho-o devagar, ainda na esperança de ver sair de dentro dele, um caçador de crocodilos bem equipado. Mas não! 
Música! A música é sempre um lugar seguro. Inacessível, (por enquanto), a crocodilos invasores dos domínios alheios. Ligo o aparelho – Chopin! Entre reflexões despropositadas penso que talvez devesse procurar uma loja de consertar pensamentos ou, até, indo mais longe, comprar um novo mecanismo de pensar, mais actualizado, mais em conformidade com os tempos que correm. Disseram-me que aqueles que já actualizaram o seu software pensante, pensam agora que, para melhor viver, o melhor é não pensar. Incorporaram em si uma espécie de dispositivo anestesiante, indolor e muito confortável. 
Gosto tanto desta música. Nem triste nem alegre. Música apenas com a evidência da vida pelo meio: o caos e um crocodilo enorme a destruir tudo, à sua passagem. Da janela vejo as árvores trémulas, tristes… - Porque estais tristes? - Não sabem a resposta. E, só de não saberem a resposta, parecem-me ainda mais tristes. 
Esta música!.. Vou ouvi-la até que me entre na circulação do sangue e me invada, de rompante, o coração, vivificando-o. É preciso um coração vivo quando, à solta, perto de nós, há um crocodilo cruel para abater. 
Não, caro leitor! Nada disto é ficção. Não lhe disse já que é real a falta de uma porta para fugir à realidade? Impossível continuar a jogar às escondidas com ela. Sonhar, é agora um delírio por demais palpável e, um delírio nestas condições, perde a insubstancialidade que o nomeia. " 
Lídia Borges, "À boca de cena"
Para que saibam, ela é uma Seara de Versos, mesmo quando escreve prosa.