16 maio, 2022

JÁ NENHUMA MISÉRIA LHES FALTA

DESAMPARADOS

Levantam-se todos os dias
cedo ou tarde
para trabalhar
para procurar trabalho
para decifrar o latim de promessas vãs
para catar restos em caixotes do lixo
nas traseiras dos hipermercados
para descer os degraus corroídos da loucura
para mirar o horizonte embaciado, sem barcos.

Sofrem sem que uma
só esperança lhes minta.

No fim do dia voltam a casa
para a sopa que lhes afaga o corpo cansado
para os cartões no chão
onde se deitam como reis
sobre a sua pobreza.

Levantam-se,
muitos anos mais velhos, a cada dia
cedo ou tarde
para trabalhar
para procurar trabalho
para decifrar o latim de vãs promessas
para catar restos em caixotes do lixo
nas traseiras dos hipermercados
para descer os degraus corroídos da loucura
para mirar o horizonte embaciado, sem barcos.
E nenhum vento que os perturbe.

Esquecem-se de sofrer. Já nenhuma miséria lhes falta.

Lídia Borges, in "Searas de Versos"

20 comentários:

  1. Gostei muito de ler... apesar do tema triste mas real.

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  2. É a fotografia de uma pintura de Géza Kukan?

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    1. Não, não é. A pintura é de Mihaela Mihailovici
      Vê, no google, obra impressionista
      impressionante

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    2. Obrigada, Rogério. Não a conhecia.

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  3. Grata pela partilha deste poema que desconhecia. Tão cruo, tão real, que não pode deixar ninguém indiferente.
    Abraço e saúde

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  4. Não conhecia este poema que é um murro no estomago por ser uma realidade pura e dura. Por aqui havia uns quantos mas felizmente depois de muitas tentativas aceitaram ir para a associação que todos os dias lhes prestava ajuda.
    Beijos e um bom dia

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  5. Por vezes, o som das injustiças "bate" [mais] forte. Bj.

    Lídia Borges

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  6. Fortíssimo poema da Lídia Borges! Já o conhecia do meu constante cirandar pelas suas searas.

    Um abraço para ambos!

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  7. Lídia Borges , uma grande artista das letras .Faz tempo que não a visito, boa lembrança, Rogério e muito bom gosto com o tema universal _ há tantos !
    meu abraço e carinho

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    1. É sempre bom saber
      que podemos lembrar
      quem não se deve esquecer

      Poema forte, esse

      Abraço amigo

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  8. Belíssimo poema, retratando uma realidade cada vez mais visível.
    Realidade que nos impele cada vez mais numa luta contra a miséria e contra as injustiças.
    Um abraço

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    1. Cada vez mais visível e que tende a estender-se, a aumentar...

      Abraço

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  9. Boa tarde Rogério
    Um poema muito bem escolhido da Lídia Borges.
    Cru e forte e tão real, é isso que ainda dói mais.
    A imagem em completa sintonia.
    Um beijo
    :(

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