28 abril, 2012

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria - Jorge Luís Borges (2)

Enquanto investigo o que as escolas de hoje andam fazendo, reedito o que há muito foi escrito... É tão bom ter quem nos leia e nos induza os livros e os seus sentidos...

Na quintinha, sentia-me um dos personagens dos contos do meu avô

Tinha 11 anos e passava as minhas férias na pequena quintinha dos meus avós, lá na margem esquerda do Tejo. Foram férias de alvoroço diferente. Não subi a nenhuma árvore, não nadei no tanque de rega, não apanhei lagartixas nem corri atrás dos gansos. A ansiedade fazia-me distrair da bicharada e do calor, naquele verão que antecipou o meu ingresso numa nova etapa escolar. Minha avó deu conta. “Que estás aqui a fazer? Vai brincar. Vá!” . Dever-me-á ter dito isso ou algo parecido. Não me lembro bem.
Recordo mais o meu avô, contando-me histórias sem fim. Rosário de contos, bem ligados e onde, fazendo ora de narrador ora de figurante, passava dos ambiente soltos e de riso para os mais densos e medonhos com monstros do fim do mundo a serem vencidos pelos destemidos navegadores. Isto entre duas quadras ou algo que rimava. Só mais tarde identifiquei algumas daquelas narrativas e poemas. Foi nesse ano que meu avô me deu a conhecer Suassuna, Mark Twain, António Aleixo, Fernando Pessoa, Gil Vicente e até Camões, sem disso me dar conta. Passei o resto das férias entremeando os meus tempos de atenção ao meu avô com tentativas de imaginar mostrengos e padres Cíceros e outros personagens daqueles mundos para onde ele sabiamente me transportava.
Um dia minha mãe me dissera: “Sabes, o avozinho era muito considerado lá na aldeia. Todos o respeitavam. O professor procurava-o sempre, levavam tempos e tempos na conversa em passeios quase diários…” À distancia dos anos, acho que aquelas férias reforçaram o meu afecto àquele meu velho e prepararam-me para a escola. Compreendi que poderia confiar em todos os professores pois eles também sabiam as histórias que o meu avô contava...
Foi assim que semanas depois entrei na Nuno Gonçalves, na esperança dos meus novos professores me irem explicar algumas coisas que eu, para não quebrar o encanto da narrativa, nunca cheguei a perguntar ao meu avô.

Hoje, e depois dos comentários de ontem, dedico este post aos professores que cumprem tão nobre missão. Aos outros, não.