26 fevereiro, 2014

A propósito do tal "Ai aguenta, aguenta!"


Agora, aguenta!

Tinha o cavalo um tipo bestial
era soberbo, altíssimo, imponente.
E como certa gente
do mundo trivial,
a augusta cabecinha
não respondia à lábia que ele tinha,
aos anseios de glória no fino galopar.

Mas vamos à história.
Contar sempre é melhor que discursar...

Na calma da manhã, quando ele estava
a saborear a fava
e a palha de centeio
viu o dono trazer
a albarda, o freio,
a cilha. Tudo digno de se ver.
Metal brilhante
coiro flamejante
e ele truca, na fava.
O dono assobiava.
Lança-lhe a albarda
aperta a cilha
mete-lhe o freio
oh, oh, que maravilha
enquanto enfarda
o gosto a sol que vinha do centeio...

Lança-lhe a albarda o dono.
Os estribos lhe deixa, ao abandono
a cilha, sem brandura
aperta, aperta, na barriga aperta,
logo o freio lhe acerta
na engrenagem da mastigadura...

Viu-se o cavalo ao espelho. Sem favor
aquele trato
dava-lhe um certo ar de baronato,
de fidalguia!
Dava, sim senhor!
Seria exigir muito à humanidade
(ou à cavalidade, com certeza!)
que tão grosso animal não fosse presa
de uma certa vaidade...
O dono dá um salto.
Relâmpago! O assalto
toma o cavalo rombo
de surpresa.
Azamboado
quando acordou, montado
já o tinha, no lombo.

Lutou, esperneou, patada, espuma.
O desespero, em suma.

-- Agora? -- diz-lhe o lobo, entre o folhedo
que a floresta sustenta
-- Devias pensar nisso, mais mais cedo.
Agora? Agora aguenta!

Uma fábula
de MÁRIO CASTRIM, editado num outro lado
in "Jornal do Fundão", no final dos anos 60