16 fevereiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 53 (exemplo de um verdadeiro entendimento)

(ler conversa anterior)
"Nada é definitivo num naufrágio
Havemos de emendar o rumo errado"
Rogério Pereira
desenho in "Urban Sketchers Portugal"

Bastou que a manhã rompesse ensolarada para que, num ápice, se enchesse a esplanada. Gente que nunca vira por ali. A um canto, sempre o seu, o velho engenheiro lia concentrado o jornal de sempre. Das professoras, nem uma, certamente expulsas por aquela vaga de novos clientes que lhes ocupara os lugares. O primeiro a ver-me foi o rafeiro do senhor engenheiro que ladrou como um chamado. Cumprimentámo-nos e sentei-me. Durante uns largos minutos não falámos. Cada um lia, mas a concentração ia morrendo à medida que as vozes à nossa volta iam crescendo. A decisão foi quase simultânea, dobrámos os jornais e desafiámo-nos com um olhar como que a interrogar qual de nós abriria a conversa. Foi ele: 
- "Com que então um poema de esperança e crença... gostei!"
- "Eis duas palavras inadequadas, gostava ter transmitido outra impressão!"
- "Outra impressão?"
- "Certeza!, certeza de que nada é definitivo num naufrágio, certeza de que havemos de emendar o rumo errado!
- "Mesmo que o barco se afunde com todos? Mesmo que não haja sobreviventes?"
- "Está a excluir pressupostos dos meus versos: Assim tua alma te reste inteira / Que a proa a tens virada ao sonho"!
O velho engenheiro anuiu calou-se e sorriu. À nossa volta ninguém nos prestara atenção e o nosso olhar foi ter, não longe, com o pombo que parecia disputar o quer que fosse com o melro, companheiros regressados. Olhámos atentamente e percebemos que se o pombo quisesse, de uma só bicada, faria desaparecer o quer que fosse de comer. Mas não, num perfeito entendimento o que ali acontecia era uma partilha.
- "Eis, um bom exemplo para um rumo certo!", disse. 
- "Que pode ser bem diferente de um rumo novo, que não se garante como certo!", respondeu.