09 fevereiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 52 ( do continente ao conteúdo e a mente da nossa gente...)

(ler conversa anterior)


Ao ver aproximar-se o velho engenheiro e o seu cão rafeiro, sorri para mim e ouvi-me assim "não há temporal que lhe afrouxe o moral e a persistência de estar". Também sorriu ao chegar "Uff, isto a muitos molha o ânimo. A mim rega-o, fá-lo crescer..."- disse, sacudindo o guarda-chuva.
Sentámo-nos num dos poucos lugares enxutos e não havia muitos. Depois disparou como se estivesse atrasado e quisesse recuperado tempo perdido.
- "Sabe?, tem-me vindo à memória, com uma intensidade estranha, uma expressão que punha em confronto duas palavras - conteúdo e continente..."
- "Embalagem e presente?"
- "Isso!, conteúdo e continente, líquido e frasco, memória e cérebro, pensamento e rosto..."
- "Gesto e alma?"
- "Exacto, isso mesmo, vejo que o meu caro me entende..."
- "E vai daí..."
- "E vai daí ligo isto às sondagens. Veja, o Jerónimo: como conteúdo é ignorado por meio mundo, como continente é amado por muita gente. Que lhe parece?"
- "Há de facto grande contradição, reconhecem-lhe honestidade no olhar, valores acumulados nas rugas, verdade na firmeza das palavras e na forma como estas são colocadas e depois..."
- "...depois ligam à terra com o conteúdo emanado por tudo isso. De nada serve o seu aviso!"
- "De nada, não. É cada vez maior a simpatia que irradia e a atenção que lhe é dada. Quanto ao conteúdo, hoje já não é fácil esconder..."
- "Mas escondem!" disse, de tal forma irado que me calei. Deitei fora o cigarro que se tinha apagado e depois abrigámo-nos da chuva que acabava de invadir toda a esplanada. O cão, não. Ficou a ali a ensopar-se em água, a afogar talvez a mesma mágoa...

(na esplanada não se falou disto,
 a chuva que chegou não deixou...)