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29 setembro, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 35

 

10º Mandamento: Nunca se esqueça da existência do universo
“Penso que nós procuramos sobretudo o que nos dá felicidade, não acha? Procuramos o que nos cria uma certa libertação íntima que é necessária à liberdade. Procuramos ser um com o universo.” (disse Sophia)
O texto de Sophia inspirou-me a formulação. Contudo, não deixo de assinalar alguma discordância quanto à motivação da minha procura. Não procuro nem a felicidade, nem a tal libertação intima. 
«Pois já dizia alguém
não gostar de falar de felicidade,
mas sim de harmonia:
viver em harmonia com a nossa própria consciência,
com o nosso meio envolvente,
com a pessoa de quem se gosta,
com os amigos.
A harmonia é compatível com a indignação e a luta;
a felicidade não, a felicidade é egoísta»

Com este décimo mandamento termino este caminho a que me propus. Lembro que estas "Liturgias" foram o prolongamento daquele outro caminho, inspirado pela obra de Saramago.

22 setembro, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 34


Dando continuação ao há muito começado, agora mais próximo do final, cito o meu nono mandamento, por leitura das 10 das melhores frases de Sophia:

9º Mandamento: Lembre-se sempre que sem prática a teoria vale nada
“Eu penso que há uma diferença entre o homem e a mulher, e os feminismos não podem… Para mim o machismo não é considerar que há uma diferença entre o homem e a mulher, o machismo é tentar fazer um negócio dessa diferença… Os feminismos são teorias. Eu acho que a teoria na nossa época tem desempenhado um papel terrível na política, tem desempenhado um papel terrível na arte, e também na vida… A vida tem sido muito sacrificada à teoria…” (disse Sophia)
Ia a fazer leitura circunscrita às questões em torno da Lei das Quotas de Género  para concluir que Sophia votaria ao lado do meu Partido. Recuo nisso. Sophia, é neste seu pensamento, bem mais profunda. Diria, que é até o pensamento mais marxista de Sophia.

15 setembro, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 33


Esta foto, de Eduardo Gageiro, escolhi-a para ilustrar este mandamento, o oitavo. Sophia, poeta, era mais indirecta... Gageiro mais certeiro...  mas ambos, cada qual com a sua arte, manifestavam a incapacidade de compreender os desígnios de Deus:

8º Mandamento: Ponha sempre alguma racionalidade na sua crença

“Sou muito angustiada com as coisas: a criança que se queima, que cai à piscina, que é atropelada, nas outras coisas tenho uma certa entrega, acho que Deus se justificará a si próprio, eu não consegui justificá-lo. Não consigo perceber porque razão há morte, sofrimento, o mal, as tentações, mas tenho consciência que talvez não tenha capacidade para isso. Eu também não tenho capacidade para compreender matemática, quanto mais… os desígnios de Deus.” (disse Sophia)

01 setembro, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 32

Este mandamento, o sétimo, é, dos dez, o único onde pareço entrar em contradição com o que disse Sophia. Atente:

7º Mandamento: Aceite-se sempre, mesmo se em perda (disse Eu)

“Com o tempo perdem-se as coisas. Eu acho que isso acontece às mulheres e aos homens. Depois vamo-nos perdendo a nós próprios, já não se tem a mesma imagem, já não se tem a mesma ligeireza, já não se tem a mesma leveza, já não se tem…” (disse Sophia)

Apresentação, contar da esquerda: Eu, Meu Contrário e Minha Alma
Acudido por incertezas fiz o que sempre faço, convoquei Minha Alma e Meu Contrário. Iniciei mais uma "mesa redonda", inquirindo primeiro Minha Alma
Eu - Diz-me Minha Alma, chegará o dia em que nos vamos perdendo a nós próprios?
Minha Alma - Sim... Por exemplo, no teu caso, sempre me mantive coerente... e assim não percas tu a coerência com que sempre te assessorei teus afectos, angústias e medos. Acho que Sophia se referia à mente, ao juízo, à memória...
Meu Contrário (intervindo, irritado) - Qual quê!? Sophia se referia ao corpo. Esse, e não seu juízo. Esse, e não sua alma. 
Eu (a pôr calma) - Pronto! Pronto! Tudo esclarecido. Sophia referia-se ao envelhecimento do corpo. Mas sendo assim, faz sentido manter o meu 7º Mandamento?
Minha Alma e Meu Contrário (em coro) - Claro!

25 agosto, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 31

Dos mandamentos que venho proferindo chegou o momento do 6º Mandamento:
Ensine uma criança a dizer um poema, antes que cresça  
“Se as crianças aprendessem poemas de cor em pequenas, se fosse uma parte integrante do ensino e até, se elas tivessem de dizer um poema de cor para serem admitidas a qualquer universidade, as pessoas passavam a falar melhor. Porque falar é próprio de todas as pessoas, não é só do médico, do engenheiro e onde se aprende a falar realmente é na poesia.” (disse Sophia)
Procurei, procurei e fiquei com a quase certeza de ser este um mandamento arredado da escola. Contudo, estes jovens, pela maturidade em como lidam com o poema são prova que lhes ensinaram em criança e que não se confirma aquela minha quase certeza. 

_____________ 

18 agosto, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 30

 

5º Mandamento, meu, inspirado pelas belas frases de Sophia: Nunca despreze uma palavra. Se sobrar, guarde-a
“Recordo-me de descobrir que num poema era preciso que cada palavra fosse necessária, as palavras não podiam ser decorativas, não podiam servir só para ganhar tempo até ao fim do decassílabo, as palavras tinham que estar ali porque eram absolutamente indispensáveis. Isso foi uma descoberta.” (disse Sophia)
E se guardar palavras, proteja-as não vá serem pisadas, e lembro Ary:
A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos

11 agosto, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 29

4º Mandamento: Use o ócio, nunca seja um ser ocioso
“O ócio é o atelier em que se escreve. Escrever sem silêncio, sem tempo, sem disponibilidade… não é possível.” (disse Sophia)

Quando em Fevereiro passado era lançado o repto "Uma imagem por um texto", enviei ao desafiante uma imagem (esta) de Sophia com o meu desafio "agora desenrasca-te" e o email lá seguiu. Lembro-me de ter pensado para comigo um mar de coisas, do estilo "tipo ocioso a querer-se livrar da espuma dos dias".

Inesperadamente, quase seis meses volvidos, aparece-me o seu texto agregado à imagem que tinha enviado. E como tinha prometido citá-lo, cumpro o prometido. E não só. Dou-lhe o meu reconhecimento de cumpridor do 4º Mandamento (e que belo é o uso feito do seu ócio).

Para quem por preguiça ou ocupação do tipo "tenho-mais-que-fazer" não vai em links trago a primeiro plano este pedaço da bela prosa do Sam:
«...a andorinha parece não querer partir, os pequenos pardais estão cada vez mais atrevidos e já comem as pequenas migalhas de bolo que espalha em seu redor, esboça um sorriso bondoso e belo, enquanto passa a mão pelo cabelo branco imaculado, para acertar um dos ganchos que parecia querer desprender-se e cita Sophia, “Se tanto me dói que as coisas passem, é porque cada instante em mim foi vivo, na busca de um bem definitivo, em que as coisas  de amor se eternizassem”.
Ana Maria nunca pensou em viver para sempre, a idade causa justos receios, e, no entanto, continua a caminhar pela vida com a mesma determinação, com o mesmo sentir de humanidade, com uma visão muito concreta do bem e do mal, do fosso entre ricos e pobres, a defender um mundo que claramente necessita de mais poesia.»

04 agosto, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 28


Se bem se lembram, calha hoje o 3º Mandamento: Não seja pato bravo

“Penso que a Cultura da nossa época tende muito a ser uma espécie de reserva cultural. Faz-se um Centro Cultural, chama-se um bom arquitecto, põe-se lá quadros bonitos e coisas bonitas… Depois, à roda, é a construção do pato bravo: é uma caricatura cultural. A Cultura é uma coisa que, ou está na mentalidade e na vida, ou não está em parte nenhuma. Não é um objecto de museu, é qualquer coisa de estrutural na vida humana.” (disse Sophia)
Disse Sophia... mas como pode ser a cultura ser o que dela disse Sophia? Qualquer coisa coisa estrutural da vida humana? Mas como?
Com menos de 1% para a cultura todos estamos condenados à mentalidade de patos bravos... A menos que algo surja daqui...

28 julho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 27


Naquele dia descobri um sitio onde alguém se aventurou a avançar com as "Dez das melhores frases de Sophia de Mello Breyner Andersen". Disse então não saber se seriam ou não, mas de pronto avancei inspirado e produzi os melhores mandamentos que jamais produziria se não fossem as frases de Sophia. Desses, já dei conta do primeiro, este segundo transforma em mandamento o que Sophia tomava por regra.

2º Mandamento: Produza beleza, a fealdade custa os olhos da cara
“A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro.” (disse Sophia)
Exemplo de "simplicidade, verdade, proporção"? Logo me veio à ideia esta obra da Olívia Marques.


... e também esta, que embora não assinado é também dela!



21 julho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 26

Na passada liturgia produzi os melhores mandamentos que jamais produziria se não fossem as frases de Sophia. Reproduzo o primeiro: Escreva um poema, salve o que julgue ser sua alma
“A poesia é das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma – quer a essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza”. (disse Sophia)
E a Maria João como se respondesse a Sophia assim escrevia:
(I)LIMITES & PARADOXOS

Entre vivos e mortos levantamos
Montanhas de aço vivo e de vontade
Contra as quais esbarrarão os grandes amos
Dos medos, quais torpedos de ansiedade,

Mas se no espanto imenso em que nos damos
Abstrusa, a novilíngua nos invade,
À nossa antiga concha retornamos,
Pela libertação da liberdade.

E mudamos. Ó céus!, como mudamos
Quer queiramos mudar, quer não queiramos,
Sem dúvida em excessiva velocidade,

Ultrapassando mesmo a ubiquidade...
Porém, na rapidez com que avançamos,
Quem mede o estado ao estado a que chegamos?

Maria João Brito de Sousa – 06.01.2019

14 julho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 25


Descobri um sitio onde alguém se aventurou a avançar com as "Dez das melhores frases de Sophia de Mello Breyner Andersen". Não sei se são ou não, mas não tenho dúvida que me inspiraram a produzir os melhores mandamentos que jamais produziria se não fossem as frases de Sophia.

1º Mandamento: Escreva um poema, salve o que julgue ser sua alma
“A poesia é das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma – quer a essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza”. (disse Sophia)
2º Mandamento: Produza beleza, a fealdade custa os olhos da cara
“A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro.” (disse Sophia)
3º Mandamento: Não seja pato bravo
“Penso que a Cultura da nossa época tende muito a ser uma espécie de reserva cultural. Faz-se um Centro Cultural, chama-se um bom arquitecto, põe-se lá quadros bonitos e coisas bonitas… Depois, à roda, é a construção do pato bravo: é uma caricatura cultural. A Cultura é uma coisa que, ou está na mentalidade e na vida, ou não está em parte nenhuma. Não é um objecto de museu, é qualquer coisa de estrutural na vida humana.” (disse Sophia)
4º Mandamento: Use o ócio, nunca seja um ser ocioso
“O ócio é o atelier em que se escreve. Escrever sem silêncio, sem tempo, sem disponibilidade… não é possível.” (disse Sophia)
5º Mandamento: Nunca despreze uma palavra. Se sobrar, guarde-a
“Recordo-me de descobrir que num poema era preciso que cada palavra fosse necessária, as palavras não podiam ser decorativas, não podiam servir só para ganhar tempo até ao fim do decassílabo, as palavras tinham que estar ali porque eram absolutamente indispensáveis. Isso foi uma descoberta.” (disse Sophia)
6º Mandamento: Ensine uma criança a dizer um poema, antes que cresça  
“Se as crianças aprendessem poemas de cor em pequenas, se fosse uma parte integrante do ensino e até, se elas tivessem de dizer um poema de cor para serem admitidas a qualquer universidade, as pessoas passavam a falar melhor. Porque falar é próprio de todas as pessoas, não é só do médico, do engenheiro e onde se aprende a falar realmente é na poesia.” (disse Sophia)
7º Mandamento: Aceite-se sempre, mesmo se em perda
“Com o tempo perdem-se as coisas. Eu acho que isso acontece às mulheres e aos homens. Depois vamo-nos perdendo a nós próprios, já não se tem a mesma imagem, já não se tem a mesma ligeireza, já não se tem a mesma leveza, já não se tem…” (disse Sophia)
8º Mandamento: Ponha sempre alguma racionalidade na sua crença
“Sou muito angustiada com as coisas: a criança que se queima, que cai à piscina, que é atropelada, nas outras coisas tenho uma certa entrega, acho que Deus se justificará a si próprio, eu não consegui justificá-lo. Não consigo perceber porque razão há morte, sofrimento, o mal, as tentações, mas tenho consciência que talvez não tenha capacidade para isso. Eu também não tenho capacidade para compreender matemática, quanto mais… os desígnios de Deus.” (disse Sophia)
9º Mandamento: Lembre-se sempre que sem prática a teoria vale nada
“Eu penso que há uma diferença entre o homem e a mulher, e os feminismos não podem… Para mim o machismo não é considerar que há uma diferença entre o homem e a mulher, o machismo é tentar fazer um negócio dessa diferença… Os feminismos são teorias. Eu acho que a teoria na nossa época tem desempenhado um papel terrível na política, tem desempenhado um papel terrível na arte, e também na vida… A vida tem sido muito sacrificada à teoria…” (disse Sophia)
10º Mandamento: Nunca se esqueça da existência do universo
“Penso que nós procuramos sobretudo o que nos dá felicidade, não acha? Procuramos o que nos cria uma certa libertação íntima que é necessária à liberdade. Procuramos ser um com o universo.” (disse Sophia)

07 julho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 24

 

Assumi o compromisso de, depois de passar pelo "Vivenciar a Vida", trazer aqui o que ainda não sabia o que aqui trazer. Aquele blog publicava "Lagos", poema de Sophia, que eu não conhecia. Relido e voltado a ler, permaneceu a dúvida sobre a ponta por onde pegar: se a guerra colonial, se Senghor que Sophia referia. Sobre os poemas de Sophia em que se refere à guerra, tinha várias hipóteses, da mais directa e clara àquela outra mais indirecta e subliminar. Por outro lado, falar de Senghor era ter de falar de alguém menos conhecido. Optei por este, exactamente por isso:
Poema para meu irmão branco

Meu irmão branco...
Quando eu nasci, eu era negro
Quando eu cresci, eu era negro
Quando eu vou ao sol, eu sou negro
Quando eu estou com frio, eu sou negro
Quando eu estou com medo, eu sou negro
Quando eu estou doente, eu sou negro
Quando eu morrer, eu serei negro

E Você Homem Branco...
Quando você nasceu, era rosa
Quando você cresceu, era branco.
Quando você vai ao sol, fica vermelho.
Quando você fica com frio, fica roxo.
Quando você está com medo, fica branco.
Quando você fica doente, fica verde.
Quando você morrer, ficará cinza.
Depois de tudo isso Homem Branco, você ainda tem o topete de me chamar de homem de cor?
Léopold Sédar Senghor

30 junho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 23



Não, a foto não é de Sophia. A foto é da Lídia Borges. Ela tem ocupado este meu espaço com a poesia que escreve e hoje prometi-lhe que a traria aqui. Transcrevo um comentário que ela me deixou no domingo passado, a propósito dessa liturgia onde se ouviam vozes de Sophia e Jorge de Sena. 
«Poesia maravilhosa, densa, profunda, verdadeira, a dizer um tempo em que tudo estava ainda por fazer e tudo era possível, porque possível ainda a autenticidade da determinação em mudar. Havia um país inteiro a sonhar o mesmo sonho. Isso mudou e a Poesia ressentiu-se. Anda agora dispersa, à procura de si própria, num mundo onde os sistemas políticos, jurídicos e afins deixaram de responder às necessidades do homem comum e passaram a servir um deus maior que é o dinheiro. Gostava de escrever poemas dizendo que o dinheiro é nada confrontado com a honestidade, a verticalidade e a palavra de um homem, mas... quem acreditaria em mim?»
Vai poeta, vai por aí, não faltará quem acredite em ti!

16 junho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 21


Sophia e Sena
Talvez?
Não! 
Tenho a certeza
Tenho a certeza
que Sophia o olhava assim
na inquietação da distância
encurtada em cada carta
das tantas que trocaram

Fecho os olhos
e não os olho
Oiço-os, oiço-os
como se estivessem aqui
ao pé de mim
(acreditem ou não, estão!)

09 junho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 20


Com ar sério, Camões pressente...
Entretanto, não é a primeira vez que, também aqui, escrevi sobre a data de 10 de Junho. Nessa, lembrei a primeira celebração depois do 25 de Abril, com discursos (pérolas) de Vergilio Ferreira e Jorge de Sena. Foi em 1977, e de Sena transcrevia parte remetendo o texto restante para um sítio, que entretanto se perdeu. Recupero, do "Noticias do Bloqueio" essa parte perdida. Contudo, antes de o fazer fui confirmar o programa oficial das celebrações e dei com a esperada omissão. Sobre Camões, nada. E no ano que assinalam os dois centenários, o de Sophia e Jorge de Sena, nada. Diria que o sentido "10 de Junho" foi comemorado, em finais do mês passado, em Sevilha.
Isso, em Sevilha!

Prosseguindo esta liturgia, cito Sophia:
Camões e a tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.
Este país te mata lentamente.

Sophia de Mello Breyner Andersen
E Sophia nada se importa que aqui traga outra palavra:
"Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha, e por isso disfarçam a sua insegurança adulta sob a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam, as liberdades dos outros, tão respeitáveis como as de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido ou D. Sebastião. (...)
Um país não é só a terra  com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado proporcionalmente, tanta gente como este".
Jorge de Sena, 10 de Junho de 1977
É um bom exercício ler um e outro, neste dia que tende cada vez mais a ser comemorado como o "Dia da Raça".
(Portugal, ganha a taça. Camões ficou com ar sério... pressente)

02 junho, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 19


Dei-me ao trabalho de procurar exemplos indiciadores da prática democrática nas escolas, local onde se ensina a cidadania. E encontrei. Logo que vi e li, pensei nesta liturgia. Diz o texto:
Os miúdos do Agrupamento de Escolas de Mortágua estiveram tão empenhados no projeto «Miúdos a Votos», que até houve entreajuda entre "rivais"

Durante a campanha, os alunos do Agrupamento de Escolas de Mortágua, em Viseu, estiveram bastante ativos durante a campanha eleitoral: divulgaram as obras preferidas através da elaboração de cartazes, marcadores, crachás e desdobráveis e com apresentações de excertos dos livros aos colegas.

«Os alunos têm trabalhado entusiasticamente e com muita criatividade. Destaco o grupo que faz campanha pelo livro A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujos elementos se vestiram de Fada Oriana para dar vida ao seu cartaz», conta-nos a professora Ludovina Ferreira, professora bibliotecária. «É de realçar ainda o espírito de entreajuda colocado na execução das diferentes tarefas, observando-se a ajuda de alunos que tinham os trabalhos mais avançados aos que estavam mais atrasados. Foi bonito de ver!»
Vestir a pele de quem se quer fazer eleger, deve ser uma lição para o eleitor!

19 maio, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 18

 

Quando numa viagem, ao contá-la, falamos em encruzilhadas é mais que certo estarmos a fazer uma metáfora. A viagem, pode ser a vida e as encruzilhadas podem ser os pontos (situações e os contextos em que ocorrem) onde fazemos opções. Nesse sentido, e porque teremos de fazer opções no próximo Domingo, ocorre-me o conto "A Viagem", de Sophia. Devem lê-lo. Primeiro, porque é belo. Segundo por lhe dá orientação de voto.
E cito:
«Através dos vidros, as coisas fugiam para trás. As casas, as pontes, as serras, as aldeias, as árvores e os rios fugiam e pareciam devorados sucessivamente. Era como se a própria estrada os engolisse.
Surgiu uma encruzilhada. Aí viraram à direita. E seguiram.
- Devemos estar a chegar - disse o homem.
E continuaram.
Árvores, campos, casas, pontes, serras, rios, fugiam para trás, escorregavam para longe. A mulher olhou inquieta em sua volta e disse:
- Devemos estar enganados. Devemos ter vindo por um caminho errado.
- Deve ter sido na encruzilhada - disse o homem, parando o carro...» E mais adiante, escreve Sophia:
- Estamos a perder-nos cada vez mais - disse a mulher.
- Mas onde há outro caminho? - perguntou o homem.
E parou o carro.
À esquerda havia uma grande planície vazia; à direita uma colina coberta de árvores.
- Vamos subir ao alto da colina - disse o homem. ­
De lá devem avistar-se todos os caminhos em redor.
Subiram ao alto da colina e não avistaram estradas...
Não sei quantos parágrafos depois
- Vamos depressa - disse o homem. - Vem aí noite e ainda não encontrámos o caminho.
E foram quase correndo.
Entre as sombras do crepúsculo ouviram de repente vozes.
- Gente! - exclamou o homem. - Estamos salvos! - Salvos? - perguntou a mulher.
E de novo se ouviram vozes:
- Estão para aquele lado - disse a mulher, apontando para a esquerda.
- Não, estão para além - disse o homem, apontando para a direita.
O homem agarrou a mão da mulher e correram os dois para a direita.
Mas à medida que iam correndo, as vozes iam-se tornando-se mais distantes.
- Vão mais depressa do que nós! - queixou-se a mulher.
- Mas - respondeu o homem - se conseguirmos ao menos seguir a direcção que levam estaremos salvos. Assim foram, escutando e correndo, enquanto as sombras do crepúsculo cresciam. Até que as vozes deixaram de se ouvir e a noite caiu espessa e cerrada.
E, perto do fim do conto
Cheios de esperança, avançaram para o espaço descoberto, mas, saindo do arvoredo, encontraram à sua frente um abismo.
Debruçados espreitaram. Porém, à luz das estrelas nada viam diante de si senão um poço de escuridão, enquanto um frio de mármore lhes tocava a cara.
- É um precipício - disse o homem. - A terra está separada em nossa frente. Não podemos dar nem sequer mais um passo.
- Olha! - respondeu a mulher.
E apontou um estreito carreiro que seguia rente ao abismo. Tinha à esquerda uma alta arriba de pedra e à direita o vazio.
O conto termina em angustiado chamamento...
depois de um quadro claro
de um lado, o esquerdo, uma arriba de difícil escalada
do outro, o direito, o vazio que é menos que nada

12 maio, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 17

  Há nos poemas de Sophia uma actualidade que registo. Parece interveniente. Parece que se cola a valores a defender aqui e agora. Parece...


As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

                                                        (in Livro Sexto, 1962)
A Forma Justa 
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
(...)
Sei que seria possível construir a forma justa
 De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
 (...)
(in O Nome das Coisas)

05 maio, 2019

Dominical liturgia [citando Sophia] - 16

Sophia, com três dos cinco filhos...

"Mãe distraída, talvez mesmo desatenta, Sophia deixava as ralações mundanas com vestuários e refeições para as criadas, encarregadas de levar as crianças à escola para que pudesse dormir até tarde. De tal forma que era comum ouvir Luísa, a empregada minhota de sempre, alardear com ironia a falta que fazia à família: «Se não fosse eu, nesta casa comiam-se versos.»", lê-se no Observador.

Noutro texto, a filha, refere-se à mãe em termos que confirma tal leitura, “Por um lado, fascinava-me, introduzia qualquer coisa de luminoso na vida. Por outro, sentia falta de ter uma mãe ‘de todos os dias’”

Em tudo isso lido, é omisso qualquer nota ou comentário sobre a vasta obra que Sophia destinou às crianças. Obra que testemunhava, ela própria, o imenso carinho e respeito que nutria por elas.

Acabo de adoptar Sophia como minha mãe adoptiva...