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31 março, 2026

A OBRA DE SARAMAGO DEIXOU DE SER DE LEITURA OBRIGATÓRIA NA ESCOLA... ASSIM, EI-NOS EMPURRADOS PARA A CAVERNA!

Isto... isto mexe muito comigo! 
Durante dois anos, todos os domingos (no meu blog) escrevia "Homilias Dominicais (citando Saramago)" e isso me obrigou a ler quase toda a obra dele. Na peça de teatro que escrevi para crianças o seu livro ilustrado ("A Maior Flor do Mundo") é levado ao palco. E mais: em criança, vivi num quarto com toda a minha família (Saramago, também); residi na rua Carrilho Videira (Saramago, também); em jovem, frequentei a Escola Afonso Domingues (Saramago, também); nessa escola tirei o curso de Serralheiro Mecânico (Saramago, também); trabalhei num jornal (Saramago, também); cheguei tarde à escrita (Saramago, também); sou militante de um Partido (Saramago, também)... Portanto, estamos sendo empurrados para a tal caverna de que Saramago aqui fala...

 

28 dezembro, 2025

Homilias dominicais (mais uma vez citando Saramago)

O "Zé Povinho" saberá, na altura própria, libertar o País do paradigma

HOMILIA DE HOJE

"Tenho uma visão bastante céptica do que chamamos de democracia. Na verdade, vivemos sob uma plutocracia, sob o governo dos ricos. Com o neoliberalismo económico, certas alavancas que o Estado detinha para agir em função da sociedade praticamente desapareceram. Não se discute hoje a democracia com seriedade. Foram impostos tantos limites à democracia que se impede o desenvolvimento de outras áreas da vida humana. Veja o exemplo do Fundo Monetário Internacional. Trata-se de um organismo que não foi eleito pela população, mas que controla boa parte da economia internacional."

José Saramago, in O Estado de S. Paulo, São Paulo, 29 de Outubro de 2005
--
"O que temos chamado de “poder político” converteu-se em mero “comissário político” do poder económico."

José Saramago in Visão, Lisboa, 26 de Julho de 2001

16 novembro, 2022

SARAMAGO [CELEBRADO, POR MIM SARAMAGUIANO]

 

Tenho dito, ao longo do tempo, que me sinto saraguiano, até ao tutano. Desde fazer referência a meras circunstância da vida, até à promoção militante da sua obra.

Quanto às circunstâncias de vida, já referi termos ambos sido criados em casa de hóspedes (ambas as nossa famílias vivemos num quarto), termos morado na mesma rua (Rua Carrilho Videira), termos frequentado a mesma escola (Escola Industrial Afonso Domingues) e termos ambos tirado o mesmo curso (Serralheiro Mecânico).

Quanto à promoção militante da sua escrita, foram 125 semanas (cerca de dois anos e meio) a publicar "Homilias Dominicais" citando, ora a sua obra, ora a sua intervenção cívica e política.

Saramago morreu? Quem disse? 

10 abril, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 125 | As vozes corajosas|

ler tudo, no Jornal Público
 

Estivesse Saramago entre nós e certamente o ouviríamos antecipando-se a outras vozes corajosas ou juntando-se-lhes, não como um eco mas como um reforço levando longe os factos ou elementos de juízo para um claro entendimento da guerra

Saramago, juntaria as suas palavras a estas outras que por aí não se calam e, sobre os crimes de guerra, não deixaria de formular juízos próximos deste, assim:

“Vladimir Putin terá de ser julgado por crimes de guerra, é inequívoco. Mas se quisermos fazer uma análise independente, realmente independente, então teremos de dizer que também George W. Bush terá de ser julgado por crimes de guerra, Tony Blair, etc, por causa da guerra no Iraque… e até em Portugal haverá quem possa ser julgado, por colaboração com os EUA.”

Anabela Alves, especialista em Direito Internacional, foi a primeira advogada a participar em julgamentos de crime de guerra no TPI, em entrevista ao Jornal de Notícias.

HOMILIA DE HOJE

Mobilizemo-nos todos para a luta pela paz.
(...)
Não é com forças de transcendência que temos de confrontar-nos, mas sim, e apenas, com outros homens. Trata-se, então, de tornar mais forte a vontade de paz que a vontade de guerra. Trata-se de entrar em mobilização geral para a luta pela paz: é a vida da Humanidade que estaremos defendendo, esta de hoje, e a de amanhã, que talvez se perca se não começarmos a defendê-la agora mesmo. A Humanidade não é uma abstracção retórica, é carne sofredora e espírito ansioso, e é também uma esperança inesgotável.

A paz é possível. Mobilizemo-nos para ela.

03 abril, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 124 [Chegou o susto necessário?]


E a esperança, não deixemos que adormeça
Dos lábios ainda brotam sorrisos antigos
e no rosto sereno
desenha-se uma vontade oculta de voltar
O corpo, outrora apenas deitado,
jaz agora sob o musgo, de verde esperança atapetado...
Deixou-se, com o passar do tempo, soterrar.
Acordará com um só susto ou gesto irado e brusco?
Se acordar, será que se solta?
Ou terá que esperar que tudo se desmorone à sua volta? 
Rogério Pereira (uma outra versão desta edição)
HOMILIA DE HOJE
"A Terra rebentará, podemos tê-lo por seguro, mas não será para amanhã. Do que estamos a necessitar é de um bom susto. Talvez despertássemos para a acção salvadora."
José Saramago, in "Outros Cadernos..."

Tremo, só de pensar
na ausência da acção salvadora

27 março, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 123 [a Paz deixou de ser tema que se recomende]

Desde que venho falando de paz que o meu espaço viu reduzida a "audiência" para menos de um terço.

Mas insisto, pois tenho gente de bem comigo e a junto à voz de Saramago:

HOMILIA COLECTIVA

“Renovo o meu apelo: Basta! Parem! Calem as armas! Empenhem-se seriamente pela paz! Rezemos sem descanso à Rainha da Paz, a quem consagrámos a humanidade, de modo particular, a Rússia e a Ucrânia, com uma participação grande e intensa, pela qual agradeço a todos.” 

Papa Francisco, há poucas horas

"Senti vergonha quando um grupo de Estados se comprometeu gastar 2% do PIB para comprar armas, em resposta ao que está a passar-se. Uma loucura"

«Não se promove a paz com mais propaganda de guerra, com mais confrontação, com mais ameaças, com mais sanções. Não serve os povos da Europa o afastamento de uma solução negociada, percorrendo o caminho do diálogo, do desanuviamento e do desarmamento.»

Jerónimo de Sousa, ontem

«Até agora a humanidade foi sempre educada para a guerra, nunca para a paz. Constantemente nos aturdem os ouvidos com a afirmação de que se queremos a paz amanhã não teremos mais remédio que fazer a guerra hoje. Não somos ingénuos ao ponto de acreditarmos numa paz eterna e universal, mas se os seres humanos foram capazes de criar, ao longo da História, belezas e maravilhas que a todos nos dignificam e engrandecem, então é tempo de deitar mãos à mais maravilhosa e formosa de todas as tarefas: a incessante construção da paz. Que essa paz, porém, seja a paz da dignidade e do respeito humano, não a paz de uma submissão e de uma humilhação quantas vezes disfarçadas sob a máscara de uma falsa amizade protectora. Já é hora de que as razões da força deixem de prevalecer sobre a força da razão. Já é hora de que o espírito positivo da humanidade se dedique, de uma vez, a sanar as inúmeras misérias do mundo. Essa é a sua vocação e a sua promessa, não a de pactuar com supostos ou autênticos «eixos do mal»...»

José Saramago, há nove anos


20 março, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 122 [Homem Novo, já!]

 

Para quê palavras minhas,
se, em inicio de Primavera,
de tudo o que se deseja
é legítima a espera.

HOMILIA DE HOJE

Culturalmente, é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves intervalos de paz para a preparação das guerras futuras.

Mas foi sempre em nome da paz que todas as guerras foram declaradas. É sempre para que amanhã vivam pacificamente os filhos que hoje são sacrificados os pais…

Isto se diz, isto se escreve, isto se faz acreditar, por saber-se que o homem, ainda que historicamente educado para a guerra, transporta no seu espírito um permanente anseio de paz. Daí que ela seja usada muitas vezes como meio de chantagem moral por aqueles que querem a guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, jura-se, sim, que se faz a guerra pela paz.

Por isso todos os dias e em todas as partes do mundo continua a ser possível partirem homens para a guerra, continua a ser possível ir ela destruí-los nas suas próprias casas.

Falei de cultura. Porventura serei mais claro se falar de revolução cultural, embora saibamos que se trata de uma expressão desgastada, muitas vezes perdida em projectos que a desnaturaram, consumida em contradições, extraviada em aventuras que acabaram por servir interesses que lhe eram radicalmente contrários.

No entanto, essas agitações nem sempre foram vãs. Abriram-se espaços, alargaram-se horizontes, ainda que me pareça que já é mais do que tempo de compreender e proclamar que a única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo.

Saramago, in O Caderno, 7 de maio de 2009

13 março, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 121 [Paz sim, guerra não!]


Na imagem, o Professor António Sampaio da Nóvoa, o juíz espanhol Baltasar Garzón e o escritor e jornalista italiano Roberto Saviano estão cabisbaixos, na apresentação de um livro póstumo. Percebe-se porquê. O livro foi escrito antes da morte de Saramago, 2010, a apresentação foi em 2014, o sentimento expresso mantém a actualidade, hoje 2022 e a homilia tem texto datado, 2003. Não saímos desta...

 HOMILIA, HOJE

«Enfrentamo-nos deliberadamente aos que querem a guerra, dizemos-lhes “NÃO”, e se, ainda assim, persistirem no sua demencial acção e  desencadearem uma vez mais os cavalos do apocalipse, então desde aqui os avisamos de que esta manifestação não será a última, de que estes protestos continuarão durante todo o tempo que a guerra durar, e mesmo mais além, porque a partir de hoje não se tratará simplesmente de dizer “Não à guerra”, mas sim de lutar todos os dias e em todas as instâncias para que a paz seja uma realidade, para que a paz deixe de ser manipulada como um elemento de chantagem emocional e sentimental com que se pretende justificar guerras. 

Sem paz, sem uma paz autêntica, justa e respeitosa, não haverá direitos humanos. E sem direitos humanos – todos eles, um por um – a democracia nunca será mais que um sarcasmo, uma ofensa à razão, uma despudorada mentira.»
(...)
«A humanidade tem sido levada a aceitar a guerra como único meio eficaz de resolução de conflitos, e os governos sempre se serviram dos períodos de paz para prepararem a guerra seguinte. Mas foi sempre em nome de uma paz futura que as guerras foram declaradas, é sempre para que amanhã os filhos vivam pacificamente que hoje se sacrificam os pais. Quem isto hipocritamente proclama sabe que o ser humano, apesar de historicamente educado para a guerra, transporta no seu espírito um perene anseio de paz. O homem compreende que o que lhe conferirá humanidade plena não é um desenvolvimento científico e tecnológico orientado para a agressão, mas a paz. Daí que esta seja usada como meio de chantagem moral por quem tem interesse na guerra: ninguém ousaria confessar que faz a guerra pela guerra, afirma-se, sim, que se faz a guerra pela paz.»
 
José Saramago, in "Discurso Contra a Guerra do Iraque

27 fevereiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 120 [a paz é possível]

Em tempos, José Saramago e Eduardo Galeano  estiveram juntos numa iniciativa histórica que em data próxima irei lembrar. Hoje, num tema em desuso (que tão necessário se torna voltar a ser bandeira) volto a juntá-los:


HOMILIA DE HOJE 

 É certo que há uma terrível desigualdade entre as forças materiais que proclamam a necessidade da guerra e as forças morais que defendem o direito à paz, mas é também certo que nada, em toda a História, pôde vencer a vontade dos homens, excepto a vontade doutros homens. Não é com forças de transcendência que temos de confrontar-nos, mas sim, e apenas, com outros homens. Trata-se, então, de tornar mais forte a vontade de paz que a vontade de guerra. Trata-se de entrar em mobilização geral para a luta pela paz: é a vida da Humanidade que estaremos defendendo, esta de hoje, e a de amanhã, que talvez se perca se não começarmos a defendê-la agora mesmo. A Humanidade não é uma abstracção retórica, é carne sofredora e espírito ansioso, e é também uma esperança inesgotável. A paz é possível. Mobilizemo-nos para ela.

20 fevereiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 119 [outros tempos, semelhantes tormentos, diferentes vítimas]

Noutros tempos, aqueles que dão cenário e contexto ao livro "Levantado do Chão" o Alentejo era tido e referido como "celeiro da Nação". Como tudo muda, o Alentejo já não é o mesmo. Acabo de ler que “É inconcebível que importemos 95 por cento do trigo mole para fazer pão. Andamos a comer açordas com pão feito com cereais da Ucrânia e do Azerbaijão”
 
Serve esta introdução para evidenciar que não foi por se dar primazia a culturas mais rentáveis que ceifeiras, camponeses e outros trabalhadores rurais terão melhorado as suas condições de vida. Pioraram e procuraram outras vidas. Já não há nem ceifeiras, nem camponeses alentejanos. Foram, como se dá testemunho, substituídos por outros "Oriundos, em particular, de África e Ásia" (...) "estas pessoas constituem a mão-de-obra escrava do Alentejo”
 
Que falta nos faz Saramago, para nos falar desta nova realidade que dispensa os verdugos de outros tempos para continuar a saga da exploração do homem pelo homem, como era então e no livro se conta.

HOJE A HOMILIA É DITA

 

13 fevereiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 118 [a seca... que não seca o "cante"]

À hora que escrevo, está chovendo. Pouco, mas chove. E ocorrem-me imagens publicadas nas últimas semanas com reportagens desoladoras da seca, com imagens expressivas de como o cultivo intensivo sorve a pouca água que resta. 

Alentejo terra que já foi do latifúndio, posse dos grandes agrários passou para outra posse, ainda mais sem rosto nem rasto. De uma a outra posse, se ouviu a terra a quem a trabalha. Sonho de pouca dura... o pesadelo parece ter vindo para ficar e as formigas se quedam, de cabeça baixa (se é que ainda há malmequeres).

HOMILIA DE HOJE

 «(...) E então num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra. Para terem trabalho, nada mais, cubra-se de lepra a minha mão direita se não é verdade. E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram, Vimos trabalhar. E isto que aconteceu aqui, aconteceu além, é como na Primavera, abre-se um malmequer do campo, e se não vai logo Maria Adelaide colhê-lo, milhares de seus iguais nascem em um dia só, onde estará o primeiro, todos brancos e voltados ao sol, é assim como o noivado desta terra. Porém, estas brancuras não são, é gente escura, formigueiro que se espalha pelo latifúndio, a terra está cheia de açúcar, nunca se viu tanta formiga de cabeça levantada (...)»

da parte final de "Levantado do Chão"

O vídeo? Dá testemunho de que, seja qual for o futuro, o "cante" ficará na nossa memória, tal como Saramago!

 


30 janeiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (cintando Saramago) - 117 [apesar de tudo, a esperança]

 

 HOMILIA BREVE

„A esperança é como o sal, não alimenta, mas dá sabor ao pão!

(...)

A esperança, só a esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo.” 

José Saramago.

16 janeiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 116 [a fé do não crente que acredita]

«...a fé, abençoada seja ela para todo sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta.»

— Saramago, em "Ensaio sobre a Lucidez"


02 janeiro, 2022

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 114 [ao som do trinar de Fado]

A candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade é um trabalho sério, limpo e belo e que, agora mesmo, alguém reconheceu ser recomendável dar a conhecer. Por acaso, ontem madrugada fora, fui reforçando o que já antes sentira:  o fado só é uma canção triste se deixarmos que a tristeza nos invada; o fado só é uma canção resignada, para quem, durante 40 anos de fascismo, nos quis povo resignado...

HOMILIA DOMINICAL
Hoje trago Saramago ao fado em duas vozes que reforçam e mais valorizam este Património Imaterial da Humanidade.


FADO SARAMAGO
Teu corpo de terra e água
Onde a quilha do meu barco
Onde a relha do arado
Abrem rotas e caminhos

Teu ventre de seivas brancas
Tuas rosas paralelas
Tuas colunas, teu centro
Teu fogo de verde pinho

Tua boca verdadeira
Teu destino, minha alma
Tua balança de prata
Teus olhos de mel e vinho

Bem que o mundo não seria
Se o nosso amor lhe faltasse
Mas as manhãs que não temos
São nossos lençóis de linho

José Saramago

26 dezembro, 2021

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 113 [o Natal à moda do Centro Comercial]

 

 O consumismo tomou conta de tudo. Estou vendo, na TV, o "Natal dos Hospitais" e os cenários repetem os temas decorativos dos centros comerciais. Onde pára o Menino? Não estranharei o dia em que a pergunta acontecerá 

"Avô, o que é um presépio?"

O nosso Natal foi um pouco daquilo que sempre tem sido mesmo onde  não pode ser, por ausência sentida...

Hoje, nesta homilia, relanço o regresso ao Natal citando um trecho que, de tão humano, se despe do religioso da fé para se assumir tal qual o Natal é!

 HOMILIA DE HOJE

„O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo de sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.“

Saramago, in «O Evangelho segundo Jesus Cristo»

19 dezembro, 2021

HOMILIAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 112 [homilia onde cabe celebrar o Natal]


Não será difícil explicar a escolha do tema desta homilia. A imagem já explica metade. A metade em falta reúne lembranças minhas, idênticas rotinas, sabores, odores e histórias nunca interrompidas. E se não for suficiente a justificação dada, recordo que não tarda a data da celebração do centenário do nascimento de Saramago.
Um natal há cem anos

Quem diz cem, diz mil. Ou quarenta. Enfim, uma eternidade. A terra está esmagada de negrume. Não chove, as tempestades andam longe: o ar parado é denso de frio e parece estalar como uma rede ténue de cristais suspensos. Há uma casa e luz dentro dela.  E gente: a Família. 

Na chaminé ardem toros de lenha em fogo brando que de repente se encrespa quando se lhe juntam gravetos secos. Então a labareda cresce, divide-se, sobe pela chaminé encarvoada, ilumina os rostos da Família e logo volta a quebrar -se. Ouve-se melhor o ferver das panelas, o frigir do azeite onde bóiam as formas antigas das filhós, entre o fumo espesso e gorduroso que vai entranhar-se nas traves do telhado e nas roupas húmidas. São talvez onze horas, a mesa está posta, o momento é de paz e de conciliação — e a Família anda pela casa, confusamente ocupada em pequenos trabalhos, como um formigueiro. 

Não tarda que todos saiam para o quintal. Agora vai ser lançado o foguete que anuncia aos vizinhos que naquela casa já a última filhó saiu do tacho, a escorrer, e foi cair no alguidar profundo, onde este produto da doçaria caseira aguarda o requinte final da canela e do açúcar. Entre portas, a Criança vê a Família a sorrir, fazendo e desfazendo grupos em volta do Avô que sopra um tição e o aproxima do pedaço de cana recheado de pólvora. Tinha pedido que o deixassem ajudar, mas não consentiram: é preciso cuidado com as crianças. 

A pólvora inflama-se bruscamente, lança um jacto de faúlhas, assobia — e o foguete dispara para o ar gelado, corta-o como uma espada de fogo, e lá muito no alto estraleja, sonoro, entre os ecos doutro foguete distante. O caniço desce com uma luz que desmaia, mortiça, e vai cair longe, nos olivais, sobre a relva coberta de geada. Não há perigo de incêndio. De súbito, a Família sente o frio e torna a casa, levando entre os braços, entre os anéis, entre os tentáculos, a Criança que não pudera ajudar a lançar o foguete. O interior da cozinha arrefeceu. A Avó atira uma mão-cheia de aparas, e o lume hesita, escolhe o lado mais acessível da lenha e, mansamente, recomeça o seu trabalho de destruição. 

A Família gira em redor da mesa, com muitos rostos corados e sorridentes, que têm nomes mas são, antes de tudo, para a Criança, os Pais, os Avós, os Tios, os Primos — um corpo de animal complicado que lhe lembra a história da Bicha-de-Sete-Cabeças Deste Mundo e do Outro 17 ou o Dragão-Que-Não -Dorme. Sobre a mesa há, neste momento, uma batalha de mãos, de dentes, de mastigação que deforma os rostos. Contam-se casos, anedotas, todos riem. O frio está lá fora, e a geada, e a noite impenetrável. A Criança anima-se, já esqueceu a decepção, para o ano talvez a deixem lançar o foguete sozinha. Tem também uma história para contar, e vai contá-la. Só está à espera de uma pausa, de uma ocasião em que todos se calem, para ajustar a sua pequena e trémula voz, porque a história é importante, muito mais do que a Família julgaria. Então, o momento aproxima-se, a Criança prepara-se, é agora — começa a falar. A Família olha, espantada, dá a atenção que pode, mas não dura muito, não pode durar, e alguém corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente. Uma frase que vai fazer chorar a Criança. 

Porque a Criança levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus que conduzem ao mundo. Ali adiante há um muro caiado, baixo, assim como uma varanda que desse para terras desconhecidas. A Criança vai debruçar-se sobre o muro, deixa cair a cabeça sobre os braços cruzados, e sente desfazer-se dentro de si o terrível nó das lágrimas. Da casa vêm risos e vozes, alguém fala muito alto, e depois ressoam gargalhadas. Está muito frio. O céu é alto e profundo. Visto dali parece feito de veludo negro, se fosse possível chegar-lhe com a mão. E há as estrelas. Duras, nítidas, implacáveis, quase ferozes. A Criança levanta os olhos. Lá estão elas a brilhar. Vistas através das lágrimas são diferentes. Que mundo estranho, este. Sob os passos da Criança, o chão estala. E, em frente, as árvores negras, vagamente assustadoras, tomam o ar confidencial de quem conhece os segredos todos.

Saramago, in crónicas "Deste Mundo e do Outro"

12 dezembro, 2021

HOMILÍAS DOMINICAIS (Citando Saramago) - 111 ["Meditação sobre uma jangada"]

Quando em Outubro, antecipando o anúncio ao regresso a estas homilias, escrevia ir trazer Saramago para a campanha pensei imediatamente neste tema. E é isso mesmo o que venho fazendo, até mesmo quando, na anterior homilia, dei a palavra ao Papa Francisco. O tema? A Comunidade Europeia, claro!

HOMILIA DE HOJE

 «(...) Suponho que estamos vivendo o tempo em que a Europa deveria apresentar a juízo o balanço da sua gestão, 

(...) o seu pecado ou vício maior, que é a existência de duas Europas, a central e a periférica, mais o consequente lastro histórico de injustiças, discriminações e ressentimentos.

(...) Ora, não haverá no futuro próximo uma nova Europa se esta não instituir frontalmente como entidade moral, e também não a haverá se não for abolido, mais do que os egoísmos nacionais, que quantas vezes não passam de meros reflexos defensivos, o preconceito da prevalência ou da subordinação das culturas. 

(...) Nenhum país, por mais rico e poderoso que seja, deveria arrogar-se uma voz mais alta. E, já que de culturas venho falando, também nenhum país ou grupo de países, tratado ou pacto, deveria propor-se como mentor ou guia dos restantes. 

(...)Porque, enfim, se de mim se espera que ame a Europa como à minha própria mãe, o mínimo que devo exigir-lhe é que ame a todos os seus filhos por igual e, sobretudo, que por igual os respeite a todos.»

Meditação de Saramago, aqui

14 novembro, 2021

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 107 ["Claraboia" podia ter sido escrito por mim]

Em Outubro de 2011, exactamente há dez anos, escrevia eu:
«Pode um homem procurar identidades com outro, até lhe assumir os tiques e procurar imitar-lhe palavras e ir até a um limite que a outros poderá parecer ridícula manifestação de perda da sua própria personalidade? Claro que pode. Pode e não surpreende. (...) Mas não valorizo isso mais do que o valor em si mesmo, dos comportamentos que nos deveriam levar a identificar e a copiar quem admiramos. Em criança, garanto-vos que já fui "Tarzan", "Capitão Fantasma", "Pincipe Valente", "Tom Sawyer" e até "Mandrake. Juro-vos que nunca quis ser "Tin-Tin" ou o "Homem de Borracha". 
A humanidade estaria melhor se procurasse seguir os seus heróis, sabendo-os escolher. A humanidade estaria melhor se todos copiássemos humanos que valorizaram a marcha humana (...) Tudo isto porque descubro a sobrevivência em mim dessa tendência de criança e "brinco" a sentir, para já, identidades com o meu herói Saramago. Dou comigo a sentir a grata satisfação de ter frequentado a mesma escola. Dou comigo a ter o prazer de também ter, como ele, curiosidade por sinaleiros... 
Na sua autobiografia pode ler-se "Já eu tinha 13 ou 14 anos quando passámos, enfim, a viver numa casa (pequeníssima) só para nós: até aí sempre tínhamos habitado em partes de casa, com outras famílias."»

E acrescentava que a mim também me aconteceu viver assim... e referia ter vivido em quartos alugados. Há pouco descobri que eu e Saramago vivemos na mesma Rua, não sei se no mesmo prédio, não sei se no mesmo quarto, naturalmente em tempos diferentes. Isso mesmo, na Rua Carrilho Videira, e ia jurar, que os personagens do seu livro são os personagens que eu descreveria se fosse eu a escrever "Clarabóia"...
 
A HOMILIA DE HOJE É ENCENADA
 
 

PS: vou enviar esta homilia às companhias de teatro cá de Oeiras, e junto-lhe um desafio! Boa?

07 novembro, 2021

HOMILIAS DOMINICAIS (citando Saramago) - 106 [Continuando o que fora interrompido]

Dou inicio hoje ao há muito interrompido. Primeiro, porque sim. Segundo, porque é oportuno. Terceiro, porque me propus a celebrar o centenário de alguém que insiste em se manter vivo e interventivo. Mais vivo que os que, estando vivos, parecem que há muito mais tempo terão morrido. Mais interventivo que os que afirmam que o estão, não estando. Ou melhor, estão intervindo para que se melhor um pouco para que tudo fique na mesma e se faça ouvir os humilhados e ofendidos, com voz de lamento, que mais vale pouco que nada.

Retomo no tema em que interrompi, citando o "Ensaio de Saramago: Verdade e ilusão democrática", publicado pelo "Expresso" em 18 de Junho de 2015 e que revela uma actualidade que nos faz pensar se no entretanto se terá passado algo, digno de ser ser anotado, para além da espuma dos dias e dos jogos de poder:

 HOMILIA DE RELANÇAMENTO 

«Aprendemos dos livros, e as lições da vida o confirmam, que, por mais equilibradas que se apresentem as suas estruturas institucionais e respectivo funcionamento, de pouco nos servirá uma democracia política que não tenha sido constituída como raiz e razão de uma efectiva e concreta democracia económica e de uma não menos concreta e efectiva democracia cultural. Dizê-lo nos dias de hoje há-de parecer, mais que uma banalidade, um exausto lugar-comum herdado de certas inquietações ideológicas do passado, mas seria o mesmo que fechar os olhos à realidade das ideias não reconhecer que aquela trindade democrática — a política, a económica, a cultural —, cada uma delas complementar das outras, representou, no tempo da sua prosperidade como projecto de futuro, uma das mais congregadoras bandeiras cívicas que alguma vez, na história recente, foram capazes de comover corações, abalar consciências e mobilizar vontades. Hoje, pelo contrário, desprezadas e atiradas para a lixeira das fórmulas que o uso, como a um sapato velho, cansou e deformou, a ideia de uma democracia económica, por muito relativizada que tivesse de ser, deu lugar a um mercado obscenamente triunfante, e a ideia de uma democracia cultural foi substituída por uma não menos obscena massificação industrial das culturas, esse falso melting-pot com que se pretende disfarçar o predomínio absoluto de uma delas. Cremos haver avançado, mas, de facto, retrocedemos. E cada vez se irá tornando mais absurdo falar de democracia se persistirmos no equívoco de identificá-la com as suas expressões quantitativas e mecânicas, essas que se chamam partidos, parlamentos e governos, sem proceder antes a um exame sério e conclusivo do modo como eles utilizam o voto que os colocou no lugar que ocupam. 

Uma democracia que não se auto-observe, que não se auto-examine, que não se autocritique, estará fatalmente condenada a anquilosar-se. Não se conclua do que acabo de dizer que estou contra a existência dos partidos: sou militante de um deles. Não se pense que aborreço os parlamentos: querê-los-ia, isso sim, mais laboriosos e menos faladores.»

José Saramago