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21 abril, 2025

HOJE, NO DIA DA SUA MORTE, VOLTO A SENTIR-ME FRANCISCO!

Faço um apelo aos crentes:
JUNTEM UMA LÁGRIMA MINHA, 
ÀS VOSSAS ORAÇÕES
E sobre o que Francisco tem dito, enquanto vivo, relembro isto:

Na recepção institucional promovida pelo Presidente da República, no CCB, perante uma plateia onde se faziam representar os principais dirigentes políticos nacionais, membros do Corpo Diplomático e personalidades de áreas diversas, o Sumo Pontífice falou do nosso País, da forma como está a acolher a Jornada Mundial da Juventude e dos que «na sociedade portuguesa se preocupam com os outros, nomeadamente a Igreja». Em particular, referiu Lisboa, não apenas enquanto «cidade do encontro que abraça vários povos e culturas», mas a cidade de um oceano que «não liga apenas povos e países, mas também terras e continentes».

«No oceano da história, estamos a navegar num momento tempestuoso e sente-se a falta de rotas corajosas de paz», referiu o Papa, questionando a Europa: «para onde navegas, se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo? Que rota segues, Ocidente? A tua tecnologia, que marcou o progresso e globalizou o mundo, sozinha não basta; e muito menos bastam as armas mais sofisticadas, que não representam investimentos para o futuro, mas empobrecimento do verdadeiro capital humano que é a educação, a saúde, o estado social». Uma Europa, coração do Ocidente, «que inclua povos e pessoas, sem correr atrás de teorias e colonizações ideológicas» e seja capaz de abrir «percursos de diálogo e inclusão, desenvolvendo uma diplomacia da paz que extinga os conflitos e acalme as tensões», sublinhou.

No seu discurso, Francisco definiu como tarefa prioritária «defender a vida humana, posta em risco por derivas utilitaristas que a usam e descartam», questionando «o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios», para além da oferta de «remédios rápidos e errados como o fácil acesso à morte».

O Papa referiu-se também a «uma triste fase descendente na curva demográfica», sublinhando que «a boa política pode fazer muito neste sentido», se for chamada «a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos».

Ainda a propósito de Lisboa, sublinhou o facto de aqui ter sido assinado o Tratado de Lisboa, de uma União que «tem por objetivo promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos», mas também o de contribuir «para a paz, a segurança, o desenvolvimento sustentável do planeta, a solidariedade e o respeito mútuo entre os povos, o comércio livre e equitativo, a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos humanos». 

Uma das personalidades presentes no Centro Cultural de Belém foi Paulo Raimundo, para quem o discurso do Papa Francisco tem um «significado na condenação das injustiças, das desigualdades, da guerra, dos problemas ambientais, das dificuldades e da precariedade que muitos jovens enfrentam», não estando desligadas «das opções e do caminho traçado pela União Europeia». O secretário-geral do PCP, para além das «preocupações com a justiça social e o apelo à paz», destacou ainda «a esperança no futuro enunciada pelo Papa, certamente não exactamente da mesma forma como nós o fazemos, mas que tem muita relevância».

29 março, 2025

VAI SENDO DITO PELO O PAPA FRANCISCO, O QUE RAIMUNDO VEM DIZENDO


Em maio de 2022, escrevia eu, citando:

"O Papa Francisco sugeriu que a NATO poderá ter motivado a invasão da Rússia à Ucrânia, numa ocasião onde voltou a reforçar a sua vontade de se encontrar com o presidente russo."

Diz ele, agora:

“Que 2025 seja um ano em que a paz cresça! Aquela paz verdadeira e duradoura, que não se detém nas querelas dos contratos ou nas mesas dos compromissos humanos. Procuremos a verdadeira paz, que é dada por Deus a um coração desarmado.” 

11 julho, 2024

NATO... E O QUE NÃO ESTAVA NADA BEM, VAI DE MAL A PIOR...

À hora a que estou escrevendo, a cimeira da NATO vai se aproximando do fim. Não vou fazer qualquer análise, apenas deixar algumas notas. As conclusões são vossas: 
  • O Mundo está totalmente entregue a um caso clínico, chame-se ele Biden ou Trump;
  • A integração da Ucrânia na NATO quebra, irremediavelmente, qualquer hipótese de negociação de paz;
  • Quem reclama a Paz, tem apenas a rua para se fazer ouvir.
  • Montenegro vê na guerra uma oportunidade económica para se investir em armamento, pois tem mercado assegurado.
 

17 março, 2024

GOLPE DE ESTADO

Hà 45 anos, assalto à sede do PCP, em Famalicão (ver artigo)
 

Se o leitor não fez as contas saiba que a IL, o salazarismo snob, cresceu oito vezes, de um para oito deputados, em 2022, mantendo agora esse grupo: o salazarismo caceteiro, tão acarinhado pelos meios de intoxicação social levando em triunfo o trauliteiro da bola reconfigurado em picareta falante sob os sorrisos babados de oligarcas e especuladores domésticos e estrangeiros, cresceu doze vezes em 2022 e quadruplicou a sua representação no passado domingo, atingindo 48 deputados. 

 Entre eles vêem-se operacionais e herdeiros do banditismo de 1974 e 1975 que assassinaram democratas e destruíram bens e instalações de partidos democratas, principalmente do Partido Comunista Português, alvo principal da sua sanha e também inimigo a abater pela cáfila de comentadores e analistas, deuses infalíveis da opinião única que chocam com desvelo os ovos da besta fascista. Caceteiros, admiradores, amigos e seguidores dos envolvidos na vaga terrorista de 1974 e 1975 são agora respeitáveis «eleitos», «senhores deputados» que, por muito que haja juras de serem mantidos à margem dos círculos governamentais – diz o povo que quem mais jura mais mente – são figuras que nunca deixarão de se fazer convidadas em cada recanto por onde se move a renovada classe política. Além de integrarem a miríade de cenários políticos que a comunidade informativa, opinativa e censória vai obrar com fartura durante uma cegada que parecerá interminável.

(...)

Os exemplos recentes deste ramo essencial da estratégia golpista de inspiração fascista é o tratamento factualmente mentiroso e omisso das posições do PCP em relação ao problema ucraniano. A intoxicação mediática conseguiu o milagre de fazer crer que os comunistas portugueses estão ao lado do capitalismo oligárquico russo que, com a ajuda ocidental, arrasou a herança económica e social da União Soviética. Alcançar a quadratura do círculo é um feito só ao alcance dos que fazem da mentira, da censura, da liquidação do pluralismo e da liberdade de opinião o seu modo de vida. A defesa da paz na Ucrânia e em todo o mundo pelo PCP é interpretada como um apoio a Putin. Fazer do absurdo verdade é, desde sempre, uma trama do nazifascismo.

(...)

O PS, parte essencial do 25 de Novembro e da estratégia para apagar o país do mapa e de manter a maioria do povo em níveis de desenvolvimento muitas vezes indignos, vítima da política insultuosa e totalitária de Bruxelas, está prestes a tomar conhecimento de que a direita em bloco, falando já em revisão constitucional à sua revelia, não tenciona agradecer-lhe os serviços prestados.

Na comunicação social corporativa, entretanto, os socialistas começaram a perceber logo na noite eleitoral que a música vai tocar de maneira diferente daqui em diante. A agressividade de comentadores contra representantes do PS é um sinal que não deve ser negligenciado.

(...)

O cenário mudou completamente no domingo e o fascismo não é representado apenas pelos chegas e il’s; no interior do PSD, sem falar no CDS agora por ele engolido, acoitam-se um sem número de salazaristas que não hesitarão em dar a cara se o momento se proporcionar.

É preferível prevenir que remediar. O golpe foi dado, porém está longe de consolidado. Abril está aí e não é apenas uma efeméride, uma memória: é um instrumento. Nunca é cedo demais para resistir e para demonstrar ao fascismo, insuflado por ventos que sopram de feição, que a democracia, para o ser verdadeiramente, terá de ser antifascista.

É para restaurar essa realidade que os antifascistas devem estar disponíveis e prontos. Ainda vamos a tempo. Tornemos o próximo 25 de Abril inesquecível."

Ler tudo no AbrilAbril


11 março, 2024

QUEM DETERMINOU OS RESULTADOS DE DEZ DE MARÇO? (AS INGENUIDADES DO PCP) - II

Ler artigo anterior


Se deixei dito que terão sido os comentadores de serviço a determinar os resultados, também não deixei de dizer que não terá sido o único factor. Os que aqui vou referir não são de somenos. Chamar-lhes ou qualifica--los de "ingenuidades" até pode ser desajustado... chame-se o que se quiser ao que a seguir vou dizer:
  • Sobre como vai o Mundo, com guerras por tudo o que é sítio, foi ingenuidade falar de Paz quando se pronunciou sobre a invasão da Ucrânia enquanto "todos" falavam em reforçar a Ucrânia com armamento*;
  • Sobre a composição social a que dirigiu as suas propostas, foi ingenuidade ignorar que, com a desindustrialização, a classe operária está reduzida a quase nada se comparando ao tempo da Siderurgia Nacional, da Mague, da Sorefame, da Equimetal, da Construtora Moderna, da Portucel, da Cimpor (entre outras da industria pesada) e, ainda, de todo o sector de construção e reparação naval onde de cerca de 26 mil trabalhadores hoje apenas por lá estão menos de 900. 
  • Sobre o aumento da pobreza, foi ingenuidade não se dirigir a mais 81 mil pessoas a viverem com menos de 591 euros mensais. E seria importante tê-lo feito pois a pobreza ou exclusão social ameaça agora 2,1 milhões de portugueses. E é desse universo que releva o que Marx identificava como lumpemproletariado o qual, por não ter consciência de classe, tende a assumir comportamentos de contestação pela contestação... 
* Se o Papa Francisco tivesse na altura dito o que hoje disse tinha-se o meu Partido livrado de tanta chatice 


01 fevereiro, 2024

A AGRICULTURA SAI À RUA... E TEM VITORIA CURTA NESTA SUA LUTA


O protesto e luta dos agricultores centra-se na reclamação de apoios prometidos e depois retirados e depois, com pálidas promessas, de serem pagos quando... ou quando... A luta, já ao cair da noite, deu como resultado algo de escrito e tudo regressa à anormal normalidade. 

Falou-se do agravamento dos custos de produção, falou-se das imposições da Política Agricola Comum que favorece a concorrência por parte de países fora da Comunidade Europeia (p.e. da Ucrânia) e impõe regras despropositadas e o protesto vai a esse ponto, reclamando a sua revisão. Falou-se do que era necessário falar, mas não se falou do que era indispensável que se falasse. Só Paulo Raimundo, que tivesse dado conta, denunciou de como a grande distribuição esmaga o preço dos produtos que compra. Falar em "ditadura da distribuição" não é excessivo...

Mas há algo mais de que ninguém fala. Só o PCP fala do papel dos grandes agrários, do latifúndio, do cultivo intensivo e  da desertificação. E não se limita a falar pois todos esses aspectos constam do seu programa eleitoral. No Programa, o PCP põe o dedo na ferida, defendendo o regresso à reforma agrária, ora leia:

Partido Comunista Português (PCP), que concorre às eleições legislativas antecipadas de 10 de Março de 2024, em coligação com o Partido Ecologista Os Verdes (PEV), na CDU – Coligação Democrática Unitária, apresentou o seu programa eleitoral no passado dia 25 de Janeiro. E apresenta como opção estratégica “uma política agrícola que, a par da racionalização fundiária pelo livre associativismo no Norte e Centro, tenha por eixo central uma profunda alteração fundiária que concretize, nas actuais condições, uma reforma agrária nos campos do Sul, liquidando a propriedade de dimensão latifundiária“.

Os comunistas defendem ainda que se “condicione por lei o acesso à terra pelo capital estrangeiro”, uma política agrícola que “trave a exploração intensiva, predadora dos solos e das reservas de água (superficiais e aquíferos), e a especulação imobiliária “turística” e assegure o bom aproveitamento das potencialidades agrícolas do Alqueva e de outros regadios e obras de engenharia agrícola, tais como o Azibo, Vale da Vilariça, Vouga, Mondego, Lis e Cova da Beira, com a concretização de um outro plano nacional de regadios que assegure disponibilidades de água para a produção de alimentos, com a definição de regras concretas nas novas áreas a regar, culturas, formas de exploração, tipologia de investimentos e investidores, que garanta ao mundo rural o acesso às redes de telecomunicações (incluindo Internet) indispensáveis à concretização dos seus projectos” 

Do texto publicado no site "Agricultura e Mar"



30 dezembro, 2023

2023 EM BALANÇO (a nível nacional): O QUE CORREU BEM; O QUE CORREU MAL

Ia eu escrever, em desespero, que não há lugar para balanço pois tudo correu mal... que esta Demo_cracia é mesmo obra do demónio. 
Estava já para aí inclinado e eis que acedo a uma crónica que me fez recuar no intento. Li e reli e percebendo que de bem e de mal, está tudo lá, embora o balanceamento não se faça diretamente... 
Faça o leitor, mentalmente.

Por Carmo Afonso 

Público - 29 Dec 2023

Na sondagem da Intercampus para o Jornal de Negócios, Correio da Manhã e CMTV, há uma nova descida do PCP. Numa sondagem anterior, tinha sido ultrapassado pelo PAN, agora foi a vez do Livre. Sabemos que as sondagens não passam disso e sabemos também que, mais do que prever resultados, elas condicionam o voto. Mas vamos assumir que estes resultados são credíveis.

Tenho visto muitas pessoas genuinamente contentes com a descida do PCP. São anticomunistas; não reconhecem a importância de termos este partido entre nós e com uma representação parlamentar expressiva. A primeira coisa que lhes quero dizer é que estão enganadas. Como afirmou um querido amigo, “Portugal não é grande coisa, mas sem o PCP seria muito pior”. São inúmeras as dívidas de gratidão que temos para com o partido. Inúmeras. Sem o PCP, a grande maioria dos direitos de trabalhadores não estaria consagrada na lei, como está. Ninguém põe em causa a justiça de trabalharmos 11 meses para recebermos 14 salários, mas tempos houve em que isso era uma miragem. O PCP esteve sempre lá.

Mas isto não é apenas sobre gratidão pelo passado. É também sobre acautelar o futuro. A presença do PCP garante uma rede de estruturas, como as sindicais, de apoio efetivo aos trabalhadores. O desaparecimento, ou o simples enfraquecimento, dessas estruturas fará diferença na vida da maioria dos portugueses, mesmo daqueles que pouco se importam com o tema desta crónica. Sobretudo, o PCP costuma estar ao lado das boas causas. Alguns dir-me-ão: “E a guerra da Ucrânia?” A esses respondo que a posição do PCP foi um pretexto para o que já tinham, há muito, vontade de fazer: excluir o partido. O PCP defendeu, e ainda defende, uma paz negociada para a Ucrânia. Os militantes foram insultados por isso. Mas reparem que agora, em relação à guerra no Médio Oriente e estando do lado da Palestina, o PCP continua a defender uma paz negociada. Não falou em enviar armamento ou em dar qualquer espécie de apoio militar à Palestina. Consistência é isto. A paz, o primeiro valor do 25 de Abril, continua atual no PCP. Ainda bem.


No mesmo dia em que soubemos dos resultados da sondagem, morreu Odete Santos. À esquerda e à direita, ouvimos palavras sentidas de apreço e reconhecimento pelas qualidades de Odete Santos e pelas lutas que travou. Tudo foi pouco. Era uma mulher autêntica. Nada na Odete Santos — salvo a honrosa exceção do seu cabelo — era artificializado. Defendia apenas aquilo em que acreditava, e acreditava em coisas boas, como os direitos das mulheres e a causa dos trabalhadores. Não tinha medo do ridículo nem do espalhafato. Isto é a definição do oposto de uma pessoa chata. Ninguém poderia aborrecer-se a ouvir ou a olhar para Odete Santos. Para quem não me conhece, ou seja, quase todos vós, esclareço: não me ocorre melhor qualidade. De pessoas chatas, está o mundo cheio.

Foi triste saber que a Odete Santos deixou de existir. Foi metafórico ter acontecido no mesmo dia em que as perspectivas eleitorais do PCP não se revelaram grande coisa. A Odete Santos representa o melhor do PCP, mas o PCP representa também o melhor da Odete Santos. É belo ver os vídeos em que se entregou à defesa dos seus pontos de vista. Mas não era só a forma que era boa, o conteúdo também era. O conteúdo que ela apregoava é a matéria de que é feito o PCP e que podemos resumir como sendo a abolição de quaisquer relações de domínio.

Comunista é um substantivo, mas cresci a ouvir a palavra ser usada como adjetivo e não num sentido elogioso. Existe um sentimento anticomunista profundamente enraizado em Portugal. Assimilámos os preconceitos da Guerra Fria e diabolizamos pessoas que são provavelmente as melhores entre nós.

Ser comunista não é apenas meter uma cruz no quadrado do PCP. Calma que também não é um voto de pobreza como muitos pretendem. Deixemos isso para as ordens religiosas. Mas significa acreditar no partido e num mundo melhor. “As causas perdidas são exatamente aquelas que poderiam ter salvado o mundo”, escreveu Gilbert Keith Chesterton, cheio de razão. Não sei se o comunismo integra a categoria das causas perdidas, mas admito que, à distância a que estamos de uma sociedade comunista, tivessem de rolar cabeças para a instituir. Por mim, não acontecerá. Afeiçoei-me à vida da social-democracia europeia. Digo-vos isto para que percebam que não é o sonho comunista que me move. Mas insisto que precisamos de um PCP forte para termos uma social-democracia saudável.

E junto-me ao grupo dos que sentirão falta da camarada Odete Santos. Foi cedo e deixou um lugar impossível de preencher. 


04 agosto, 2023

VOLTEI A SENTIR-ME FRANCISCO!

A parte relevante do discurso do Papa Francisco no Centro Cultural de Belém não teve o eco esperado entre meios de comunicação, analistas e comentadores, o que deixa perceber o desconforto face a algumas das questões levantadas.
Na recepção institucional promovida pelo Presidente da República, no CCB, perante uma plateia onde se faziam representar os principais dirigentes políticos nacionais, membros do Corpo Diplomático e personalidades de áreas diversas, o Sumo Pontífice falou do nosso País, da forma como está a acolher a Jornada Mundial da Juventude e dos que «na sociedade portuguesa se preocupam com os outros, nomeadamente a Igreja». Em particular, referiu Lisboa, não apenas enquanto «cidade do encontro que abraça vários povos e culturas», mas a cidade de um oceano que «não liga apenas povos e países, mas também terras e continentes».

«No oceano da história, estamos a navegar num momento tempestuoso e sente-se a falta de rotas corajosas de paz», referiu o Papa, questionando a Europa: «para onde navegas, se não ofereces percursos de paz, vias inovadoras para acabar com a guerra na Ucrânia e com tantos conflitos que ensanguentam o mundo? Que rota segues, Ocidente? A tua tecnologia, que marcou o progresso e globalizou o mundo, sozinha não basta; e muito menos bastam as armas mais sofisticadas, que não representam investimentos para o futuro, mas empobrecimento do verdadeiro capital humano que é a educação, a saúde, o estado social». Uma Europa, coração do Ocidente, «que inclua povos e pessoas, sem correr atrás de teorias e colonizações ideológicas» e seja capaz de abrir «percursos de diálogo e inclusão, desenvolvendo uma diplomacia da paz que extinga os conflitos e acalme as tensões», sublinhou.

No seu discurso, Francisco definiu como tarefa prioritária «defender a vida humana, posta em risco por derivas utilitaristas que a usam e descartam», questionando «o descarte dos idosos, os muros de arame farpado, as mortandades no mar e os berços vazios», para além da oferta de «remédios rápidos e errados como o fácil acesso à morte».

O Papa referiu-se também a «uma triste fase descendente na curva demográfica», sublinhando que «a boa política pode fazer muito neste sentido», se for chamada «a corrigir os desequilíbrios económicos dum mercado que produz riquezas mas não as distribui, empobrecendo de recursos e de certezas os ânimos».

Ainda a propósito de Lisboa, sublinhou o facto de aqui ter sido assinado o Tratado de Lisboa, de uma União que «tem por objetivo promover a paz, os seus valores e o bem-estar dos seus povos», mas também o de contribuir «para a paz, a segurança, o desenvolvimento sustentável do planeta, a solidariedade e o respeito mútuo entre os povos, o comércio livre e equitativo, a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos humanos». 

Uma das personalidades presentes no Centro Cultural de Belém foi Paulo Raimundo, para quem o discurso do Papa Francisco tem um «significado na condenação das injustiças, das desigualdades, da guerra, dos problemas ambientais, das dificuldades e da precariedade que muitos jovens enfrentam», não estando desligadas «das opções e do caminho traçado pela União Europeia». O secretário-geral do PCP, para além das «preocupações com a justiça social e o apelo à paz», destacou ainda «a esperança no futuro enunciada pelo Papa, certamente não exactamente da mesma forma como nós o fazemos, mas que tem muita relevância».

Publicado em AbrilAbril

12 junho, 2023

A GUERRA, NA VISÃO DE ROBERT F. KENNEDY JR.


 "Washington transformou a Ucrânia  num matadouro" Foi assim que o candidato presidencial dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., considerou a guerra na Ucrânia. Na sua entrevista com o jornalista Jordan Peterson, do Daily Wire, Kennedy  lembra que toda a média ocidental preferiu ignorar durante todos esses anos: “O governo dos EUA derrubou o governo ucraniano eleito democraticamente em 2014, elegeu um novo líder ucraniano, financiou uma guerra civil contra os russos étnicos no leste e provocou a Rússia  numa guerra por procuração dos EUA”. 
Kennedy Jr. diz que foram as ações gananciosas de Washington que arrastaram Kiev para a guerra. Ele acusou a Casa Branca de usar a Ucrânia como um "peão" para atingir seus próprios objetivos geopolíticos. O político, assim como Snowden, aponta para o papel dominante da Casa Branca, que controla cuidadosamente o fluxo de informações e segue uma política agressiva com qualquer um que tente dizer a verdade sobre a guerra ucraniana: "Transformamos a Ucrânia em um matadouro que matou 350.000 jovens ucranianos. Eles mentem sobre quantas pessoas morreram. Eles escondem isso de nós. O Pentágono esconde isso do povo americano." Ele acredita que o governo da Casa Branca demonstra as hostilidades entre a Rússia e a Ucrânia "na forma de uma história em quadrinhos", formato que muitos cidadãos americanos percebem melhor do que qualquer formato de mídia. Portanto, é mais fácil zumbificar o público americano."

Claro que esta noticia vai ser silenciada em toda a imprensa ocidental dita de referência e naturalmente no jardim de Borrel  e nas TVs Do rectangulo."

 Post publicado no FOICEBOOK

22 fevereiro, 2023

NÃO, NÃO VENHO FALAR DO MEU CRÂNEO... MAS DA UCRÂNIA ...


No outro dia, falando do meu crânio, deixei implícita a necessidade de ouvir uma terceira opinião e colocava a necessidade de ter igual procedimento se viesse a falar da Ucrânia. Ora cá vai: 

«Acusar todos os que acham que não há uma solução militar para a guerra da Ucrânia e que uma solução de paz negociada deve ser encontrada o mais cedo possível de estar a favor de Putin nunca fez sentido, mas à medida que o tempo passa, a narrativa de que é preciso continuar a guerra até que a Ucrânia alcance uma vitória militar vai ficando cada vez mais insustentável.

Na verdade, à medida que o tempo passa, as peças da narrativa política e mediática imposta à opinião pública pelos Estados Unidos e pelos seus mais fiéis acólitos europeus, baseada na ideia de que a guerra tem de prosseguir até ao último ucraniano, vão caindo como um castelo de cartas.

Desde logo, a partir do momento em que há cerca de um ano atrás a guerra entrou numa nova fase com a ofensiva russa sobre o território ucraniano, era evidente, tendo em conta a desproporção de forças existente, que a solução que melhor serviria os interesses do povo ucraniano seria trabalhar para um cessar fogo imediato e para a abertura de negociações que permitissem uma coexistência pacífica entre a Rússia e a Ucrânia que salvaguardasse a segurança de todos, incluindo do povo do Donbass.»

Ler tudo aqui


20 fevereiro, 2023

NÃO, NÃO VENHO FALAR DA UCRÂNIA ... MAS DO CRÂNIO... O MEU

Lembram-se do tal relatório? Foi hoje desmontado na consulta tida de manhãzinha... por conclusão saí com receituário com ênfase nas pastilhas de vitaminas..

De entre o relatório e o ouvido, pelo neurologista de serviço, "não batendo a bota com a perdigota" tenho mesmo que ir ao desempata....

Se estivesse a falar, não no meu crânio, mas na invasão da Ucrânia há uma certa semelhança...

03 fevereiro, 2023

"A GUERRA, O ALTAR E O TRANS", a não perder!

 A minha situação de saúde e os sustos recentes do que me vai acontecendo, não me vai distraindo dos temas que a comunicação social coloca na ordem do dia. Tenho informação alternativa. Do que a página AbrilAbril vem publicando não perco pitada. A guerra da Ucrânia e o altar são dois exemplos. Ora vejam e oiçam bem:

02 junho, 2022

"A RÚSSIA A LUCRAR, NOS COMBUSTÍVEIS, COM AS SANÇÕES EUROPEIAS"

A presidente da Comissão Europeia em mais um conjunto de medidas que afecta as populações da Europa e não pára a guerra. CréditosOLIVIER HOSLET / EPA/LUSA

O texto, publicado no AbrilAbril, é longo e denso, mas não o trago todo (embora o recomende). Ora leia:

O Ministério das Finanças da Rússia diz esperar receber até um bilião de rublos de receitas adicionais de petróleo e gás este ano. Isto foi declarado, pelo ministro, Anton Siluanov, no início desta semana.

Os peritos ocidentais dizem que as receitas do petróleo e do gás da Rússia atingiram um nível recorde, apesar das sanções ocidentais sem precedentes.

De acordo com Janis Kluge, especialista do Instituto Alemão de Relações Internacionais e Segurança, as receitas da Rússia provenientes da venda de transportadores de energia aumentaram mais de 50%.

Em Abril, Moscovo recebeu 1,8 biliões de rublos provenientes da venda de petróleo e gás. Em Março, este valor foi de 1,2 biliões de rublos.

Assim, a Rússia recebeu metade das receitas previstas de petróleo e gás para 2022 em apenas quatro meses. As sanções do Ocidente sobre a Rússia acabaram por beneficiar esta no sector da energia. É impossível retirar o mesmo petróleo russo do mercado sem permitir que o seu preço suba. E se o preço do barril continuar a crescer, então a procura de «ouro negro» russo subirá na mema proporção.

Estes números confirmam a tendência já expressa nos dois primeiros meses de guerra, conforme tinha noticiado, a 27 de Abril passado, o jornal The Guardian:

«A Rússia quase duplicou as suas receitas provenientes da venda de combustíveis fósseis à UE durante os dois primeiros dois meses de guerra na Ucrânia, beneficiando do aumento dos preços, mesmo com a redução dos volumes.

A Rússia recebeu cerca de 62 mil milhões de euros das exportações de petróleo, gás e carvão nos dois meses desde o início da invasão, de acordo com uma análise dos movimentos e cargas marítimas efectuada pelo Centro de Investigação sobre Energia e Ar Limpo do Reino Unido.

Para a UE, as importações foram de cerca de 44 mil milhões de euros nos últimos dois meses, em comparação com cerca de 140 mil milhões de euros durante todo o ano passado, ou cerca de 12 mil milhões de euros por mês.

Os resultados demonstram como a Rússia tem continuado a beneficiar do seu estrangulamento sobre o abastecimento energético da Europa, mesmo enquanto os governos têm procurado freneticamente impedir Vladimir Putin de utilizar petróleo e gás como uma arma económica.»

As sanções têm sido, de facto, incapazes de reduzir, de facto, de uma forma eficiente, a dependência energética dos países da União Europeia em relação à Rússia.

As exportações russas descem, os preços sobem, e as sanções derrapam

Ler tudo aqui

28 maio, 2022

PORTUGAL VS. UCRÂNIA - UMA COMPARAÇÃO QUE NÃO LEMBRA AO DIABO... II

«Portugal é hoje o país da União Europeia com mais emigrantes em proporção da população residente. O número de emigrantes portugueses supera os dois milhões, o que significa que mais de 20% dos portugueses vive fora do país em que nasceu. Entre 2010 e 2013, o número de saídas de Portugal cresceu mais de 50%. Entre 2013 e 2014, a emigração estabilizou em torno das 110 mil pessoas por ano.»  

Lendo isto aqui, fui ler o que se passa na Ucrânia e lá, porque há mísseis, bombas e tiros, o êxodo já ultrapassa os 5 milhões... se podemos comparar? Claro que não! Mas dá que pensar... Não é preciso um só tiro para que êxodo semelhante  aconteça... Acontece como se fosse guerra...

27 maio, 2022

PORTUGAL VS. UCRÂNIA - UMA COMPARAÇÃO QUE NÃO LEMBRA AO DIABO...

Soubemos o que Costa disse, ficámos sem saber o que realmente pensa. Não sei até o que lhe passa pela cabeça. Nem me atrevo a adivinhar... terá ficado, como eu ficaria, com o coração desfeito ao ver tal destruição. Ao saber do sangue derramado. Ao saber de tantas e violentas mortes. Mas...

...mas ouso comparar Portugal à Ucrânia.

Comecemos pelo território, onde a Ucrânia tem praticamente perdida a região do Donbass, Portugal já tem efectivamente perdida 70% da vasta região do Alqueva. Isto sem um só tiro. Sem um só grito. Sem sangue derramado. Efectivamente o «latifúndio, que nalguns casos deu lugar ao megalatifúndio, tem vindo a aumentar e é maioritariamente, propriedade de seis grupos económicos ou fundos imobiliários – Elaia, De Prado, Olivomundo, Aggraria, Innooliva e a Bogaris – na sua maioria espanhóis que detêm 65,5% de toda a área de olival. Isto estende-se até Portalegre, onde os grupos Elaia e De Prado possuem muitas herdades próprias e arrendadas». E o testemunho citado abarca outras comparações, designadamente a debandada. Na Ucrânia, são aos milhões. No Alqueva, são à escala.  Por exemplo «em Avis, na década de 60 do século passado, tínhamos cerca de 8 mil habitantes. Em 2019, éramos 4248. Isto significa quase 50% da população» Isto, sem um só tiro...

 Depois do território, passemos às empresas. A Ucrânia deu ontem conta de já terem sido arrasadas cerca de 300. Por cá, à escala, foram quase tantas. Por exemplo, um sector inteiro foi para o galheiro. Qual? O da metalomecânica! E isto, sem um só tiro. Siderurgia Nacional, Mague, Equimetal, Cometna, Sorefame, só para citar as grandes que foram à vida. Isto sem um só tiro! E para não falar da construção e reparação naval, ela toda no estaleiro... Alfeite, Lisnave, Setenave, Viana... Isto, sem um só tiro...

A Ucrânia, invadida, está em chama (e chaga) viva. Nós, por aqui, vamos ficando ardendo em fogo lento.

Se Costa pensa  nisso? Pensar, pensa! Mas como não há mortos nem feridos... alguém há-de escapar!

26 maio, 2022

A COMPANHIA NACIONAL DE BAILADO, A OLGA RORIZ, JOSÉ SARAMAGO E COISAS QUE ME ENCHEM A ALMA...

Hoje, deambulando pela net dou com uma notícia que me enche a alma. É assim:

«Oito anos depois da última criação de Olga Roriz para a CNB, a coreógrafa regressa ao Teatro Camões para apresentar uma nova criação inspirada na obra do Nobel da Literatura português.

«Há muita coisa na obra de Saramago que sinto que se cruza com o meu trabalho. Como os caminhos tortuosos do ser humano, o seu sofrimento, a sua dor, a perplexidade frente ao amor e à morte e a injustiça, a violência, os direitos humanos, a desigualdade», disse a coreógrafa, citada num comunicado da CNB enviado à agência Lusa.

Deste mundo e do outro recupera o título de uma das obras de Saramago (1922-2010), mas «procura transmitir uma visão sobre a herança literária, a visão do homem e escritor, uma forma de sentir Saramago», segundo a CNB, que fez o convite a Olga Roriz para a nova temporada, já desenhada por Carlos Prado, director da companhia.»

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Aproveito para deixar imagens impressionantes de um bailado coreografado pela Olga... não, não é sobre a invasão da Ucrânia, mas sim sobre uma guerra de que pouco se fala... 

08 maio, 2022

DE HÁ MUITO ME SINTO... FRANCISCO...


«O Papa Francisco sugeriu que a NATO poderá ter motivado a invasão da Rússia à Ucrânia, numa ocasião onde voltou a reforçar a sua vontade de se encontrar com o presidente russo.

Francisco disse que a NATO “ladrou” à porta da Rússia e que isto pode ter provocado a invasão da Ucrânia.

Numa entrevista ao jornal italiano “Corriere della Sera”, o Papa refletiu sobre a agressão letal da Rússia ao seu vizinho e disse que, embora não se possa chegar ao ponto de dizer que a presença da NATO em países próximos “provocou” Moscovo, e “talvez facilitou” a invasão.

Relativamente ao uso de armas, o pontífice está dividido quanto ao fornecimento de armas aos ucranianos.

“Estou muito longe de poder responder à questão sobre se é certo fornecer armamento aos ucranianos. O que está claro é que as armas estão a ser testadas naquela terra. Os russos sabem agora que os tanques são de pouca utilidade e estão a pensar noutras alternativas. As guerras são travadas para isso: para testar as armas que produzimos”, garantiu.

Quanto à visita aos países em guerra, o Papa explicou que primeiro quer ir a Moscovo e referiu que sente que não tem de ir à Ucrânia.

“Não vou a Kiev agora. Enviei o Cardeal Michael Czerny e o Cardeal Konrad Krajewski, que lá foram pela quarta vez. Sinto que não preciso ir. Primeiro tenho que ir a Moscovo, primeiro tenho que conhecer Putin”, destacou.

O Papa tem demonstrado, em diversas ocasiões, a sua vontade de se encontrar com e presidente russo e três semanas depois de ter começado a guerra, a 24 de fevereiro, Francisco formalizou um pedido e ainda aguarda resposta.»

07 maio, 2022

PUTINISTAS HÁ MUITOS, SEUS PALERMAS

Tenho andado a percorrer espaços não alinhados, hoje transcrevo do "aventar", por um montão de razões e porque encontrei por lá a Teresa Palmira Hoffbauer . Então cá vai:

«Apesar de não ser comunista e de não me rever nas tomadas de posição do PCP, não no conteúdo, mas na forma, assumo que vai-me dando um gozo especial ouvir aqueles que nunca perdem a oportunidade para vaticinar a morte do Partido Comunista, um partido “moribundo”, dizem, mas que sempre ocupa o imaginário de vingança PRECquiana de tais neurónios. O imaginário de vingança e os sonhos molhados, acredito, porque isto é gente com patologias.

Digo isto porque não deixa de ser estranho que os que acusam o PCP de “totalitarismo”, sejam os mesmos que agora querem afastar um executivo democraticamente eleito, com base em “alegadamente”s. É Putin na Ucrânia, os EUA em qualquer sul-americanismo que mexa, o PSD em Setúbal, centenas nas redes sociais e dois ou três no Aventar. Tudo ganha ainda mais cinismo quando situações como a de Setúbal aconteceram em Albufeira, Gondomar ou Aveiro, em Câmaras governadas por PS ou PSD, mas aí está, aparentemente, tudo bem. Ou isso, ou os jornalistas ainda não descobriram tal. Confesso que teria a sua piada, e é bem possível que aconteça, que em Setúbal se realizassem eleições para a Câmara Municipal e a CDU ganhasse outra vez. E junto mais um motivo: quando Zelenskyy veio à Assembleia da República, o PCP não compareceu – fez mal, mas não compareceu; ora, segundo notícias da altura, mais de um terço das pessoas questionadas também não seriam a favor da presença do presidente ucraniano no Parlamento. Mérito ou demérito, uma coisa é certa: o PCP continua a ter representação porque continua a representar partes da população. É tão simples como 1+1 ser igual a 2. Mas, como de costume, os decisores não escutam o povo. Não o auscultam. Não o tentam favorecer. Ao invés, imbuem-se de uma sede de poder a qualquer custo e até uma guerra a Leste serve as pretensões da direita em Portugal. Na arte do aproveitamento político, nunca ninguém será melhor do que a direita. Especialmente, esta nova direita: mais reactiva, mais capaz de baralhar e confundir, mais populista e artificialmente erecta.

Gostaria de escutar os argumentos, de assistir às novas tentativas de ascender a todo o custo ao poder, de ver a fabulação daqueles que, antes, eram pró-oligarcas e agora são anti-matrioscas e de me rir com a falta de vergonha que o PSD (e outros mal paridos) tem na cara. Oxalá se concretize.

Vivemos dias em que se atira um “putinista” para lá, um “putinista” para cá… e até os mais ávidos putinistas deixaram de o ser, com a direita portuguesa a travestir-se ao máximo neste particular. É caso para dizer: putinistas há muitos, seus palermas!»

João L. Maio, no AVENTAR

03 maio, 2022

«OLHA QUE NÃO DANIEL, OLHA QUE NÃO!»

«Meu caro Daniel Oliveira,
Desde muito jovens que somos militantes de muitas causas e que nos cruzamos nesta vida. Encontramo-nos acidentalmente com alguma frequência, trocamos impressões com enorme cordialidade sobre os mais variados assuntos, fundamentalmente sobre a vida política, que acompanhamos apaixonadamente. Sabemos do que cada um de nós vai escrevendo e dizendo em público. Temos imensos amigos comuns e creio poder dizer que somos amigos. Concordamos muitas vezes e discordamos outras tantas, mas temos em comum o facto de, como escreveu José Fanha, trazermos o mês de abril “a voar dentro do peito”.

Na passada semana ouvi uma crónica na TSF onde atacas duramente o PCP a propósito do que consideras ser a sua posição sobre a Ucrânia. É certo que atacas a hipocrisia de outros partidos (designadamente o PSD e o CDS) por criticarem o PCP, quando fizeram o que fizeram sobre o Iraque, mas a centralidade da crónica é sobre o PCP e é isso que me merece reparo e, mais que isso, discordância.

Passo por cima da adjetivação: posição “inaceitável, esdrúxula, insuportável, revoltante”, nas tuas palavras. Entendo a violência destas qualificações como uma espécie de tributo a pagar ao macartismo reinante. Qualquer referência ao PCP sem ser nesses termos seria porventura entendida como contrária ao esforço de guerra do Ocidente e sujeita a todos os vitupérios nas redes sociais e fora delas.

A posição do PCP, em teu entender, merece essa qualificação, porque o PCP teria “posto em causa que houve uma invasão”, logo, isso equivale a uma não condenação. Ora, caro Daniel, nada legitima essa conclusão. Desde logo porque, se nem todos os dirigentes do PCP qualificaram a guerra da Ucrânia usando o termo invasão, houve outros, não pouco responsáveis (e nem me refiro a mim próprio), que o usaram. Mas mais importante que o termo usado, seja invasão, guerra, conflito, ou seja o que for, o facto é que não houve um único dirigente do PCP que se tenha pronunciado que não a tenha condenado.

É curioso que os comunistas, que sempre foram acusados pela comunicação social mainstream de dizerem todos o mesmo (a cassette) agora são acusados de dizer coisas diferentes, e como não usaram todos o substantivo comum “invasão”, foram condenados a não ter condenado aquilo que inequivocamente condenaram.

Adiante na tua crónica consideras que o PCP terá baseado a sua posição em três argumentos, a saber: a) a Ucrânia não é democrática; b) a questão da segurança da Rússia; c) a discordância com o armamento da Ucrânia.

São de facto três questões que o PCP tem vindo a referir e que são questões relevantes. O problema é que o PCP não apoia a invasão. Condena-a. E portanto, é totalmente abusivo dizer que o facto de alguém (neste caso, um partido) pretender contextualizar um assunto aduzindo factos que são deliberadamente ignorados pelo maniqueísmo reinante, significa apoiar uma invasão.

Mas vejamos cada um deles: que a Ucrânia não é democrática, que quase todos os partidos estão ilegalizados (o Partido Comunista desde 2014) e que forças político-militares assumidamente nazis foram integradas formalmente nas Forças Armadas ucranianas não é questão de opinião. É factual. Mas não ignorar isso, não significa apoiar uma invasão. Afirmas e bem, que o PCP não apoiou a invasão do Iraque apesar de Saddam ser quem era. Tens razão. O PCP nunca apoiou invasões externas para mudar regimes políticos, e no caso da Ucrânia também não apoia. Haverá em Portugal quem, depois de durante muitos anos ter colocado Putin num pedestal, o derrube agora para colocar Zelenski no seu lugar. Mas o PCP, que nunca colocou Putin em nenhum pedestal, também não se sente obrigado a erguer estátuas a Zelenski para expiar pecados que nunca teve.

A segunda questão diz respeito à segurança da Rússia. Escrevia Mário Soares em 2008, perante o alargamento da NATO para leste, que isso não poderia deixar de ser sentido pela Rússia como uma ameaça. Escreveu Kissinger também já há alguns anos que a Rússia nunca poderia consentir a entrada da Ucrânia na NATO. Não ignorar este facto é apoiar uma invasão? Não é. O vendaval de críticas ao PCP e a muitas personalidades que referem o alargamento da NATO para leste como uma das causas desta guerra não tem nada a ver com qualquer apoio à invasão da Ucrânia. Deve-se ao facto de os poderes dominantes, incluindo a comunicação social mainstream, não suportarem qualquer crítica ao papel da NATO, dos EUA e da UE enquanto potências agressivas e ameaças à paz mundial.

A terceira questão é o armamento da Ucrânia. A comparação que fazes com Israel e a Palestina tem toda a razão de ser, e só dá razão ao PCP. De facto, o PCP não podia ser mais solidário com o povo palestiniano, sujeito à mais ilegal ocupação, à mais brutal repressão e a um regime de apartheid que conta, como bem sabemos, com o apoio ativo dos EUA e com a complacência da UE, mas nunca passou pela cabeça de ninguém do PCP pensar que a resposta é armar a Palestina até aos dentes para que, perante a desproporção de forças existente, resista até ao último palestiniano.

Referes o apoio ao Vietname, mas aí a comparação é deslocada. A participação dos EUA na guerra do Vietname, em nome da luta contra o comunismo, resulta da decisão de envolvimento militar norte-americano destinado a impedir que o regime corrupto instalado no sul desse país fosse derrubado pelo seu próprio povo, o que acabou por acontecer à custa de muitos milhares de mortos.

Podemos continuar esta conversa, caro Daniel, um dia destes em que nos encontremos por aí, com a cordialidade de sempre, na concordância e na discordância, mas para já o mais importante é fazer o que se puder para que esta guerra termine tão brevemente quanto possível e para que não se instale entre nós, portugueses, um clima de intolerância que pode conduzir a resultados funestos.

Na tua crónica, Daniel, dizes muitas coisas acertadas, mas no que se refere aos fundamentos da crítica ao PCP, atrevo-me a recorrer a um clássico: olha que não, olha que não!»

António Filipe, em "Opinião"/Jornal Expresso"