03 setembro, 2010

Moçambique, causas remotas dos efeitos de hoje - 1

Os recentes incidentes no Maputo impõe-me um olhar sobre Moçambique, sobre o seu passado recente na procura das razões que expliquem os acontecimentos preocupantes. Neste post relembro a minha primeira passagem por Moçambique e a situação que aí se vivia ...


A imagem, retirada hoje do site do Hotel Cardoso, mostra uma mesa preparada para ser farta. Sê-lo-á todos os dias. Em 1983, quando a Norma(*) me instalou aí durante cerca de três semanas, não precisava deste aparato, havia só um prato: carapau (durante cerca de oito dias era o que havia, por vezes às duas refeições). Nem recordo os conteúdos que debitava a uma assistência faminta de duas fomes: fome de conhecimentos para reerguer os caminhos de ferro e os portos do país e fome daquela que faz mesmo morrer de inanição. Os quadros médios e superiores do estado moçambicano cumpriam, em formação intensiva, uma tarefa nacional depois de, percorrerem toda a cidade tentado cumprir a tarefa "doméstica" diária de arranjar comida para a família... Esta situação decorria fundamentalmente da esperança. O acordo entre o Governo Moçambicano e os Governos Francês e de Portugal, tinha por finalidade a recuperação dos Transportes e Portos, bem como a implementação de uma Escola Profissional (participação portuguesa no projecto envolvendo uma parceria ente a CP e a NORMA) para este pessoal, a todos os níveis e cobrindo todas as funções. Vivia-se uma relativa acalmia de guerra. O governo de Moçambique, que já tinha secretamente encetado negociações com o governo sul-africano e com a própria RENAMO, assinou em 1983 um acordo de "boa vizinhança" com aquele governo, que ficou conhecido como o Acordo de Nkomati, segundo o qual o governo sul-africano se comprometia a abandonar o apoio militar à RENAMO, enquanto que o governo moçambicano se comprometia a deixar de apoiar os militantes do ANC que se encontravam em Moçambique. A fome era o preço que todos aceitavam pagar em troca da esperança. Esperança vã, pois a RENAMO reactivaria a actividade e três anos mais tarde, em 1986, tinha já estabelecido uma base central na Gorongosa e expandido as acções militares para todas as províncias de Moçambique, contando ainda com o apoio do Malawi, cujo governo tinha boas relações com o regime do apartheid. Nesta altura, a RENAMO tinha conseguido alcançar um dos seus objectivos estratégicos que consistiu em obrigar o governo a abandonar a sua política de "socialização do campo" através das aldeias comunais e machambas estatais. A "guerra dos 16 anos" só terminaria com a assinatura do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1992. Renascia então a esperança e mais uma vez a fome era moeda com que aquela se pagava. Sem caminhos de ferro, sem portos, sem energia e sem agricultura, nem Deus sabe com o povo moçambicano sobrevivia naqueles tempos...
CONTINUA
(*) NORMA, Empresa de consultoria do Grupo CUF e que após as nacionalizações passou para o universo do Instituto de Participações do Estado - IPE. Foi-se extinguindo, definhando, definhando, até à sua formal extinção em data desconhecida... Chegou a ser o maior centro de processamento de dados da Península Ibérica. Trabalhei na Norma de 1980 a 1994.

10 comentários:

  1. Em qualquer lugar do mundo, os políticos são todos iguais, sempre acabam traindo o povo.
    Abração

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  2. No Brasil eu tinha um amigo moçambicano. E ele me contava o sofrimento que passaram.
    Guerras, fome, pobreza...
    Não duvido que passaram os dias a comer peixe. Certamente não havia mais o que comer, não é?^

    E hj, sem a guerra, o povo continua a sofrer. Agora com o descaso, corrupção e abandono. Que mundo é esse... é de chorar.

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  3. E muitos dos nossos políticos actuais continuam a vender sonhos dourados a troco de mais uns votos para se instalarem a eles e aos amigos nas cadeiras do poder.
    A política falhada das socializações que alguns teimam em impor.
    Dêm margem para quem quer trabalhar e produzir.
    É o povo que cria um país e uma nação

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  4. Moçambique. Um grande país, mal aproveitado...

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  5. PObre população, que seja onde for é sempre moeda de troca e carrega todas as consequências de tratados e traições.

    Como dizia George Orwell , as lutas políticas significam para as classes baixas simplesmente uma mudança de senhores, nada mais.

    Bom fim de semana.

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  6. Acho que daqui a 2/3 anitos e se a malta não abrir os olhos, nós, por cá, nem carapaus vamos ter.
    Se gostasse de apostas, nisto, tenho o mau pressentimento de que vou acertar.

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  7. Também conheço esta frase de George Orwell: "as lutas políticas significam para as classes baixas simplesmente uma mudança de senhores, nada mais." Com a qual estou absolutamente de acordo!!!

    Ando fugida da blogosfera, porque tenho cá em casa uma VIP, vinda do Porto, que me trouxe um livro do Saramago.
    Depois das suas homilias de domingo, publico um trecho desse livro, que há apenas dois dias que comecei a ler.

    Saudação da amiga de longe, Teresa

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  8. Meu Caro Rogério, falar de Moçambique para mim é muito difícil, tenho lá todas as minhas melhores memórias e custa-me muito estar a assistir às presentes dificuldades....

    Acabo de regressar às lides bloguisticas, mas a vontade de retomar o trabalho é que é muito pouca.

    Um beijinho

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  9. Não existem revoluções

    com estômagos vazios
    e as pedras têm asas

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  10. Rogério

    Obrigada por partilhar aqui esta sua "leitura".

    [Das duas vezes que estive no Maputo, em 97 e este ano, fiquei instalada no Hotel Cardoso]

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