06 setembro, 2010

Moçambique, causas remotas dos efeitos de hoje - 3

Do avião, vistas de cima, as águas tomaram a cor da pele daqueles a quem lhes encharcava os haveres, impiedosamente, tomando como sua toda a terra boa. Os cultivos e os animais ter-se-ão perdido, deles restando sabe-se lá o quê de coisas a enterrar. Tem sido assim em anos consecutivos. Foi assim o que vi, voando para o Soio cerca de oito meses depois de lá ter estado, na Hidroeléctrica de Cahora Bassa num trabalho que já comentei ter sido profissionalmente gratificante... Na estadia anterior tinha, além de desenhado novos processos, definido requisitos para a sua informatização. Vinha agora, numa curta estadia de 4 dias, verificar a conformidade funcional do sistema.

As imagens de gentes sofrendo depressa foi substituída pela pressão da minha missão. Correu bem o meu trabalho e no prazo apertado que me fora concedido consegui escrever um pequeno relatório com as inconformidades detectadas e instruções para a sua correcção. O director responsável, estava visivelmente satisfeito com o resultado final do trabalho. Convidou-me para jantar em sua casa, convite esse que aceitei, planeando secretamente nesse jantar colocar-lhe mil perguntas. No dia combinado, a caminho da casa do meu simpático anfitrião, ia passado em revista algumas das questões a pôr: Como estaria a economia, sequelas da prolongada guerra, operacionalidade dos portos e dos caminhos de ferro moçambicanos, para quando as comunicações móveis alargadas a todo o território, a agricultura e o impacto das cheias e ciclones... Com estas ideias fui me aproximando da residência, localizada numa das zonas mais arborizadas e bonitas do Soio. Ao meu encontro veio primeiro a boxer, a sua cadela brincalhona que me reconheceu oferecendo-me festivos latidos reclamantes de festas (nessa noite estava visivelmente bem disposta pois, contrariamente a um hábito inexplicável, não tinha comido nenhum sapo. Apareceu de seguida um empregado e logo depois o dono da casa que me cumprimentou efusivamente, juntando-se a nós a sua mulher e as duas crianças, filhos do casal. Seguiram-se palavras de circunstancia, falando em conversa solta e agradável sobre um monte de coisas pessoais e perspectivas, com a já prevista deslocação para o Maputo, como aliás iria acontecer com todos os serviços administrativos da empresa. Não toquei num só dos pontos agendados por mim e fiz mal. O jantar, um divinal caril de caranguejo, encostou-me às boxes. Não habituado ao gindungo, suei, enranhozei e as lágrimas corriam-se sem qualquer comoção a justificar tal choro. Passado o primeiro impacto e perante a minha insistência continuei a comer, não voltei as costas à luta e devorei o meu prato. Contudo, este pequeno incidente gastronómico fez com que todas as perguntas ficassem por fazer. Já de regresso, no avião, ia pensando que as respostas não poderiam ser positivas e que Moçambique era em 2001 um país esquecido por Deus... Sobre as imagens das cheias, lá do alto, nada era perceptível. Em quatro dias as águas tinham retomado os leitos dos rios e a lama não se via nem quem nela lutava pela sobrevivência.

Sobre a agricultura e o uso das terras boas, só há dias tive a resposta, quase 10 anos depois, nesta noticia do DN: "há tendência de desinvestimento na agricultura tradicional e aposta de grupos internacionais em cereais usados no domínio energético. A Galp tem lá projectos, assim como os chineses e os sul-africanos. Solos de primeira qualidade agrícola estão a ser usados dessa forma". Talvez isto seja parte da explicação do que se passou no Maputo. Essa poderá ser uma das causas desse efeito, mas haverá outras...

CONTINUA