13 janeiro, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 23 ( ...o gesto feio da autarca)

(Ler conversa anterior) 
- «Filho feio não tem pai.»
- Como?
- «Filho feio não tem pai.»
- Que frase terrível!
- Sim, é terrível, mas é isso mesmo. E não é apenas filho feio. Acontecimento feio também não tem pai. O zero também não tem pai. Culpa também não tem pai. 
Gonçalo M. Tavares, hoje
...até que a Gaby estoirou "Olhem-me só esta cabra... era o que faltava..."

Na esplanada os assuntos pareciam esgotados. Todas elas, o engenheiro e até eu estávamos de acordo sobre o que se tinha falado: que o tal estudo do FMI era uma lebre posta a correr e irá dar lugar ao que vai acontecer e sobre o que vai acontecer, embora não se possa prever, não será nada de bom; que o resultado do jogo de logo é incerto; que o cão que matou a criança é o menor culpado... Isto, assim dito, parece não ter a ver com o tempo que levou até toda a esplanada chegar ao consenso. Fez-se depois prolongado silêncio, até que a Gaby estoirou:
- "Olhem-me só esta cabra... era o que faltava!..."
- "Qual cabra? O que é que estás a ver?"
- "Reforma aos 48 anos, quase 2 mil  dele. E falam estes comunas em exemplo... que acto feio!, todos lhe malham, e é bem feita"
- "Todos?, quais?"
- "Todos os jornais"
- "Algum diz como é que ela fez isso?"
- "Todos dizem que é a coberto da lei..."
- "E algum diz quem é que votou a lei?"
- "Não! esse ponto é omisso... e o que é que a legalidade de um acto tem a ver com a falta de ética de quem o comete?"
- "A lei define a circunstancia. Não é possível julgar o homem isolado da circunstancia... «se a circunstância não é humana, humanizemos a circunstância»...
- "Queres dizer que se devia aproveitar o acto feio para fazer mudar a circunstancia?"
- "Sim, e mais..."
- "Mais o quê?"
- "Responsabilizar a paternidade duma lei sem ética, sem moral"
- "Estás a branquear a responsabilidade da autarca!..."
- "Não!, estou a por a claro a responsabilidade sobre os que provocam a degradação do sistema..."
- "E quem são?"
- "Adivinha!"