03 janeiro, 2014

"Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa." (Torga)


O miúdo aproximou-se, mais curioso que a medo, daquela figura coberta de negro. Ela caminhava, lenta mas certa, direita. Era baixa e segurava um bordão. O miúdo, por detrás, acompanhou-lhe o passo até que, decidido, lançou-lhe um olá metediço. Ela parou, e com um olhar vivo mas inexpressivo respondeu-lhe ao cumprimento. Encorajado, o miúdo perguntou o que perguntava a toda a gente com quem se metia, "Como te chamas?" -"Resignação!", respondeu ela prontamente. "Só tens esse nome?" Ela ficou um tempo imenso a olhar o ar como se esperasse ler o seu apelido entre as nuvens perdido... "Chama-me Resignação, o resto já não conta!" e continuou o caminho, agora mais apressada como se tivesse coisa importante para fazer. O miúdo ficou a olhá-la até a ver desaparecer na primeira curva do caminho que a levava à aldeia, para se juntar aos outros, também chamados resignados.