21 janeiro, 2014

Ouvimos dizer que estás cansado. Ouvimos dizer que estás cansada. Que a raiva vos secou por dentro, que não vos apetece fazer nada...


Ouvimos dizer que estás cansado
«Ouvimos dizer que estás arrasado.
Que já não podes andar de cá para lá.
Que estás muito cansado.
Que já não és capaz de aprender.
Que estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.
Se estiveres cansado e adormeceres
ninguém te acordará,
nem dirá:
levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?

Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.
Ninguém te irá buscar e dizer:
houve uma Revolução. As fábricas esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão
enterrar-te, quer tu sejas ou não culpado
da tua morte.

Tu dizes: que já lutaste muito tempo
que já não podes lutar mais.
Se já não podes lutar mais, serás
destruído.

Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.

É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode
exigir, afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.»

Bertold Brecht