19 janeiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 49 (... o cão rafeiro mijar-lhe-ia nas pernas se o ALA aqui estivesse)

(ler conversa anterior)
"...Se os homens, mantendo a sua inteligência incorrupta, fossem seres imóveis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um único metro quadrado de terra espontâneo. Poderiam possuir um grau de aperfeiçoamento no pensamento abstracto, matemático e lógico, mas não deixariam de ser uma espécie secundária ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer cão mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas imóvel..."
Gonçalo M. Tavares, in "Sem Acção, de Nada Vale a Inteligência"

A Gaby, passou do estado de atenta para um estado exasperado. O rosto ficou-lhe avermelhado e atitude parecia ir ser violenta. E foi. Levantou-se, dirigiu-se à minha mesa, e gritou para se fazer ouvir mesmo a quem não queria: "O senhor é um... é um..." E perdeu, naquele momento preciso, o adequado adjectivo. Quando o encontrou saiu-lhe quase inaudível - "...é um ser ignóbil", e bramia o iPad com o ALA a fumar tranquilamente, na "pantalha". Levantou-se assustado o cão rafeiro e o mesmo fez o senhor engenheiro, temendo ambos a agressão. A Teresa quis colocar água na fervura, sem sucesso, e a  Guida manteve-se neutra, tranquila. A Gaby, continuava ali à minha frente, mãos nas ancas, desafiadora: "Fique a saber que o Nobel, para mim, era ele que o merecia", dizia.
- "Mas leu?" perguntei eu
- "Claro que li, porque julga que me insurjo. Isto, escrito por si, é sujo! É um ataque ao carácter"
Peguei no Ipad (que ela tinha mandado para cima da minha mesa), abri-lhe o link em que citava Batista Bastos, apontei ao citado e li em voz alta, para que todos ouvissem, depois fiz o mesmo ao que escreveu Saramago:
"O cidadão que o escritor é não pode ocultar-se por trás da obra. Ela, mesmo importante, não pode servir de esconderijo para dar ao autor uma espécie de boa consciência graças à qual ele poderia dizer que está ocupado e não tem tempo para intervir na vida do país."
Cortou o velho engenheiro o fio àquela meada: "Se o ALA estivesse aqui sentado o meu rafeiro já o tinha mijado! Nas pernas, como nos fala o Gonçalo..."
E a calma regressou à esplanada.

4 comentários:

Lídia Borges disse...


Aqui não meto "bedelho". Insisto em manter na minha estante o ALA perto do José Saramago e logo a seguir o Vergílio Ferreira, o Torga e o GMT, o Valter Hugo Mae, o Pessoa, o Cesário... É no diálogo entre eles, no confronto de ideias, teorias, filosofias, saberes e opiniões que melhor podemos perceber o mundo que nos rodeia e formular sobre ele o nosso pensamento.

Lídia

Rogerio G. V. Pereira disse...

Lídia,

Falamos de coisas diferentes, eu falo de homens e não do que eles escreveram ou escrevem. Quando, daqui a cem anos se perguntar (se perguntarem) "Como era possível viverem-se tempos como aqueles - estes - com escritores tão elevados?"

Procuro, hoje, respostas para perguntas futuras...

Cristina Cebola disse...

Sim Rogério! Muitas vezes se confunde o escritor, a sua personalidade e carácter, com aquilo que é ficção na sua obra.



Abraço!!!

jrd disse...

A coisa é tão complexa que fico sem saber se era o ALA que se mijava ou ou se era o rafeiro do senhor engenheiro que lhe alçava a pata em cima.