05 janeiro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 47 (... daqui a cem anos nenhum de nós estará vivo!)

(ler conversa anterior)
"Uma coisa para fazer sentido hoje tem de fazer sentido daqui a cem anos."
"Guardo sempre uma distância de segurança em relação à política. A distância permite que possamos fazer coisas que são políticas mas não conjunturais. Interessa-me mais a política do ser humano."
Gonçalo M. Tavares, in Citador

"Bom dia!" - disse o velho engenheiro à chegada não em tom de cumprimento mas de constatação. Estava de facto uma manhã agradável, a temperatura, o sol, a ausência de chuva e o pouco vento. O rafeiro do senhor engenheiro, contrariamente à entoação do dono, cumprimentou-me com aquele olhar e a cauda com que os cães cumprimentam quem gostam. "Bom dia!" respondi aos dois. Longe da enchente da semana passada, éramos só nós que estávamos na esplanada.
"Ter-se-ão penalizado por terem votado em Goebbels?" - como resposta encolhi os ombros

O engenheiro ficou como se tivesse perdido assunto, mas voltou com outro
"Hoje o DN, na página de Artes, diz que a penúria de obras literárias se assemelha à dos tempos da pré-revolução*, em que os autores metiam os originais na gaveta..."
"A crise não condiciona só o pão!..." - respondi, evasivo
"Nada que tenha a ver com censura... com Goebbels..."
"Goebbels tem a ver com tudo..."
"Será então disso que o Gonçalo se defende?... que guarda distância em relação à política?"
"Possivelmente... Interessa-lhe a política do ser humano. Mas acho que ele também aqui emprega uma metáfora"
"Só perceberemos isso, na verdadeira dimensão, daqui a cem anos!"
"Daqui a cem anos, nem nós nem ele, estaremos vivos..."
"Exactamente por isso meu amigo, exactamente por isso! A política obriga a grande exposição. Gonçalo  trabalha para a posteridade e não arrisca ficar pelo caminho..."
"É uma acusação forte, essa!"
"Pois é!" disse, distraidamente. 

* O termo usado no texto do DN é um eufemismo para evitar a palavra fascismo.

5 comentários:

Lidia Ferreira disse...

Muito interessante esse texto , o dialogo entre os homens e fantástico rsr
adorei
bjs

jrd disse...

"Uma coisa para fazer sentido hoje tem de fazer sentido daqui a cem anos."

Uma frase poderosa mas também perigosa.

Mariazita Azevedo disse...

Essa é uma grande verdade, tal como é certo que há cem anos atrás poucos de nós já existiam.
É um pouco deprimente pensar nisso, não?

O texto está óptimo.

Obrigada pela presença na minha «CASA».
Um ano 2014 melhor que o que acabou (não é pedir muito, pois não???)

Beijinhos
http://mw2.google.com/mw-panoramio/photos/small/7994850.jpg

maceta disse...

alguem há-de ler e dizer daqui a 100 anos...

Lídia Borges disse...


A política do ser humano é a única que perdurará no tempo. As ideias/ideologias de hoje podem não ser as de amanhã, como não são, as de ontem. Quanto ao Homem. Ele
"é a medida de todas as coisas". Para que pudesse viver mais feliz, dentro do seu grupo cultural e social é que se inventaram as "políticas".
A verdade é que nenhum sistema até hoje, soube dar conta do recado, embora possamos até acreditar que uns poderão fazer melhor que outros.

Não creio que G.M.T. se queira resguardar da política, pensando na posteridade.
Pelo menos, não é assim que o leio nesta afirmação.

Bjs.