08 outubro, 2018

Eleições no Brasil: A Direita deu uma surra. Mas a Esquerda não acabou.



Haddad obteve 28,26% dos votos, enquanto Bolsonaro lidera com 46,79%. Em terceiro lugar está Ciro Gomes (PDT), com 12,5%. O baixo desempenho de nomes já tradicionais na disputa presidencial surpreendeu desta vez, como é o caso de Geraldo Alckmin (PSDB), que ficou em quarto lugar com apenas 4,8% dos votos, e Marina Silva (Rede), que figura atrás até mesmo do novato João Amoêdo e do evangélico Cabo Daciolo, com 1% do eleitorado.

Basta ver a foto acima (retirada do Portal Vermelho) para concluir que a se a direita deu uma surra, a esquerda não acabou. A luta não está fechada, e será taco a taco.

Mas há uma eleição já fechada, a Câmara dos Deputados. 
Olhemos os resultados, segundo o Conversa Afiada:
- PT perdeu 5 mas continuar a ser a maior bancada, com 56 deputados;
- o partido de Bolsonaro ganha 45 deputados em relação à bancada atual e se torna a segunda maior, com 53 deputados;
- o maior fracasso, retumbante, é o do PSDB: perdeu 20 deputados e passou de quarta a nona maior bancada - quem mandou dar o Golpe?;
- o MDB, o centro do Golpe, partido do presidente ladrão, do gatinho angorá, do Eliseu Quadrilha (segundo o ACM), do Geddel boca de jacaré (o irmão dele não se reelegeu...), do essa porra Jucá (que não se reelegeu), do Índio Eunício (que não se reelegeu)... essa quadrilha, na Câmara, perdeu 17 deputados;
- perderam também outros partidos golpistas: PP, DEM (que tomou uma surra na Bahia do ACM Neto), PPS (do ex-comunista Roberto Freire, que não se elegeu...); e PTB, do Bob Jefferson e filhinha;
- ganharam o PDT do Ciro (mais 8 deputados), o PSB do França (mais 6) e o Novo do Amoêdo, cujos 8 deputados devem abraçar com doce constrangimento o Paulo Guedes...

A Direita deu uma surra. Mas a Esquerda não acabou.

Assim:
As novidades mais evidentes nas eleições brasileiras de 2018 são o facto de um candidato de extrema-direita ter chances reais de ser eleito presidente e o facto de uma linha divisória de género se apresentar como clivagem central nas intenções de voto.

O contexto actual não pode ser explicado sem voltarmos a 2014. É algo reconhecido não apenas por analistas, mas por políticos de diferentes matizes, como mostra a entrevista de Tasso Jereissati publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia 13 de setembro de 2018. A série de “erros memoráveis” do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) a que se refere o senador tucano* inicia-se, segundo ele, quando o partido decidiu contestar o resultado das eleições presidenciais de 2014.
Mostraram-se equivocadas as expectativas de que a criminalização do PT (Partido dos Trabalhadores) deslegitimasse um partido em vez da política, que o apoio à direita nas ruas podia ser instrumentalizado para conduzir tucanos e parte do chamado “centrão”, por atalhos, ao governo federal sem maiores efeitos nas preferências eleitorais; e que a operação Lava Jato poderia ser mobilizada cirurgicamente. O golpe de 2016 – que Jereissati não nomeia – mexeu no equilíbrio político das últimas décadas e atingiu a democracia. Numa eleição em ampla medida organizada pelo confronto entre lulismo e antipetismo, os tucanos ficaram sem identidade, isto é, não foram capazes de representar o antipetismo. Nem a antipolítica, para a qual contribuíram inconsequentemente. Esse lugar tem sido, até o momento e a dias do primeiro turno das eleições, ocupado por Jair Bolsonaro.
O candidato da extrema-direita expõe a parte mais sombria do processo de desconstrução democrática que vivemos desde 2014. Aquilo que parte dos apoiantes do impeachment de Dilma Rousseff procurou manter dentro de certos limites tem agora expressão clara como alternativa eleitoral. Nele, o desprezo pela democracia e a adesão ao neoliberalismo estão atrelados à contestação aberta de direitos fundamentais, da agenda de direitos humanos consolidada ao longo de décadas e de princípios democráticos básicos. Ele traz para a campanha presidencial a voz dos grupos que, nas manifestações pelo impeachment, pediam a volta da ditadura militar. E fá-lo sem disfarces.
O neoliberalismo que é vocalizado na campanha pelo economista Paulo Guedes é o componente que o aproxima de outras candidaturas. Mas a mistura entre militarização, elogio a torturadores e à ditadura e um estridente machismo, composto do ódio às mulheres e do ódio à população LGBT, é o que o identifica nessas eleições. E não é de agora. Em 30 anos de mandato como deputado federal, a sua notoriedade fez-se assim, bradando contra os direitos humanos e, especificamente, contra os direitos de mulheres e homossexuais, manifestando-se com violência e legitimando a violência contra esses grupos, defendendo que a insegurança social seja enfrentada à bala. E sobre as políticas sociais… bom, sobre essas ele não fala.
É aqui que entram as mulheres.

Fascismo e misogenia
Voltemos a 2014. Uma mulher havia sido eleita, a primeira a chegar à presidência da República no país. A campanha contra ela foi sexista e misógina, expôs o caráter masculino da política e a resistência em considerar as mulheres como pares. Como bem se sabe, Bolsonaro deu seus toques pessoais a este processo a isso ao homenagear um dos torturadores mais brutais da ditadura de 1964, o coronel Carlos Alberto Ustra, no seu voto pelo impeachment de uma mulher que foi torturada durante a ditadura de 1964.*
E como as mulheres reagiram a este processo?
Há uma pista na sondagem realizada pelo Datafolha nos dias 29 e 30 de novembro de 2017, que revela que 66% dos homens e 75% das mulheres avaliaram como ruim ou péssimo o desempenho do governo Temer, que completava então um ano e meio. A sondagem feita pelo Datafolha também investigou como eleitores e eleitoras viam o governo Temer comparando-o com o de Rousseff. Nesse caso, a visão crítica delas também foi mais aguda: 56% dos homens e 68% das mulheres responderam que o governo Temer é pior do que o governo Dilma.
E como se posicionam na disputa eleitoral atual?
Na pesquisa Ibope sobre as eleições presidenciais de 2018 divulgada em 24 de setembro, 54% das mulheres disseram que não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto entre os homens essa rejeição é de 37%. Nenhuma outra candidatura tem índices de rejeição maiores entre as mulheres do que entre os homens. Fernando Haddad, que está em segundo lugar nas sondagens, apresenta 34% de rejeição entre os homens e 26% entre as mulheres. Ciro Gomes tem 20% de rejeição entre eles e 15% entre elas.
Liguei brevemente os pontos a 2014, falei da trajetória de manifestações machistas do candidato de extrema-direita. Mas faltou falar de um aspecto que considero importante: a candidatura de Bolsonaro é descolada da realidade atual das mulheres.

Ódio e desprezo
Enquanto as mulheres colocam em acção o movimento de maior expressão pública nessas eleições, o movimento #EleNão, que conta com mais de três milhões de mulheres na sua página no Facebook e tem convocado manifestações em todo o Brasil, o candidato de extrema-direita não as reconhece como sujeitos sociais ou sujeitos políticos. Sim, há ódio. Mas há também desprezo, ausência de compreensão típica de quem nunca foi capaz de ouvir por estar fechado numa visão autoritária das relações sociais que é praticamente aguda no tocante às hierarquias de género.
Nas 81 páginas do programa de governo do candidato do PSL (Partido Social Liberal, que apoia Bolsonaro), as mulheres aparecem apenas como vítimas de estupro. Enquanto 11,6 milhões de famílias são, segundo dados de IBGE de 2015, formadas por mulheres sem cônjuges com filhos, o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, afirmou que as casas em que mães e avós criam sozinhas seus filhos e netos são “fábricas de desajustados”. O antifeminismo é a tónica na campanha da extrema-direita e o feminismo é, sem dúvida, um componente central ao #EleNão. Mas há mais do que isso em jogo. Eles estão de costas para elas.
No Brasil, as mulheres têm nível educacional maior do que o dos homens, mas os seus salários são em média 24% menores do que os deles nas mesmas ocupações. O desemprego atinge-as em maior percentagem, apesar de a escolaridade ser, em tese, uma vantagem. E elas dedicam, em média, 18,1 horas semanais aos trabalhos domésticos e de cuidado, enquanto eles dedicam 10,5 horas. O que Bolsonaro tem a dizer sobre isto no programa de governo? Nada. E durante a campanha? Que quem é competente é reconhecida.
Os dados disponíveis indicam que as mulheres que rejeitam a candidatura de Bolsonaro em percentagens mais altas são justamente aquelas que se encontram em maior desvantagem nesse balanço entre emprego, rendimentos e responsabilidade pelo trabalho doméstico. São aquelas que dependem de creches para poder trabalhar, que não podem contratar outras mulheres para dar conta da sobrecarga do trabalho doméstico ou são, elas mesmas, trabalhadoras domésticas. Segundo os dados divulgados pelo Datafolha na Folha de S. Paulo, em 20 de setembro, enquanto 14% das mulheres com rendimento familiar mensal de até dois salários mínimos declararam voto em Bolsonaro, essa percentagem eleva-se para 32% entre aquelas que ganham mais do que cinco salários mínimos. Já na votação em Haddad, a diferenciação dos segmentos de rendimentos praticamente não existe entre as mulheres – 18% das que pertencem ao segmento de menores rendimentos e 17% das que integram o de maiores rendimentos declararam voto no candidato. A explicação pode não estar no género isoladamente, mas em como o género, classe e raça definem expectativas distintas em relação ao papel do Estado para aquelas que vivenciam, no seu quotidiano, a falácia do discurso do mérito individual.
Bolsonaro é a nossa mais genuína representação da desconstrução democrática em curso também em outras partes do mundo. Conjuga militarismo, neoliberalismo e machismo. Nas suas posições, o papel do Estado não vai além da repressão, as desigualdades não são vistas como um problema político e uma questão para ser enfrentada no âmbito estatal, as mulheres não são reconhecidas como sujeitos. A resposta delas é clara. Não o reconhecem como candidato que mereça seu voto. #EleNão.
Flávia Biroli, cooperação 
Blog da Boitempo/O Lado Oculto

2 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

No Brasil e um pouco por todo o mundo, os bolsonaros vão-se instalando, ganhando força e voz, deitando as garras de fora.

A esquerda não acabou, mas está a braços com uma tarefa quase sobre-humana.

No Brasil e um pouco por todo o mundo, os povos vão recebendo de braços abertos os seus cavalos-de-Tróia.

Anónimo disse...

Têm a palavra Haddad e Ciro Gomes.