11 novembro, 2012

Geração sentada, conversando na esplanada - 18 (Muros Largos e Cartas Abertas)

(Ler conversa anterior)
"Esta interpelação não pode nem deve ser vista como uma qualquer reivindicação nacionalista ou chauvinista – é uma interpelação que se dirige especificamente a si, enquanto promotora máxima da doutrina neoliberal que está a arruinar a Europa. Tão pouco interpelamos o povo alemão (...)" - Carta Aberta a Ângela Merkel

A esplanada, ensolarada, e cheia, depressa se converteu em nossa plateia...

Não tenho dúvidas de o velho engenheiro e seu cão rafeiro serem meus fãs devotos. Ele, porque não mais me deixou de dirigir palavra a propósito dos meus escritos. O seu cão, apenas por abanar o rabo, quando me via chegar. A esplanada estava cheia e depressa se silenciou e transformou em auditório, para o diálogo que passou de muros fechados a cartas diversas que, às sacadas, foram (e continuam a aparecer) dirigidas à chanceler:
- Li o seu escrito sobre a queda do muro, lançou-me o velho com voz elogiosa - É um texto enxuto mas que remete para palavras extraordinárias de Saramago...
- Viu o video?
- Claro!, mas o que retenho são as palavras de Saramago: "que se deite abaixo (mas isto é pedir o impossível) o muro que divide os ricos dos pobres..." Só não percebo porque considera impossível que seja derrubado..
- É um muro largo!
- Tanto que não possa ser derrubado?
- Está muita gente em cima, desse muro largo, não cai nem para um, nem para outro lado...
- Refere-se à classe média?
- Sim, a essa classe... é ela que que está num impasse...
- Mas então é preciso que a classe média desapareça para haver alguma possibilidade de derrubar o muro?
- Não, basta que opte de que lado quer estar, se do lado dos pobres se dos lados dos ricos!
- Basta então essa opção?
- Basta essa opção!, mas não é fácil... Não leu algumas cartas que andam por aí a circular?
- Onde quer chegar?
- Há cartas que pedem à chanceler desse país rico que ponha os pés na terra, que olhe para a nossa história, para a nossa capacidade, para os nossos produtos e que compreenda que o aperto que nos está fazendo só nos conduz ao empobrecimento. São cartas que admitem que os ricos possam dar atenção aos aflitos... e que é possível fazê-lo, continuando ricos, como se os ricos não o fossem à custa da existência dos pobres...
- São cartas na linha daquela outra ideia de fazer passar um filme para sensibilizar o povo alemão...
- Isso era Marcelo a brincar com coisas sérias e para animar os que continuam em cima do muro...
- Marcelo está claramente do lado dos ricos?
- Marcelo está claramente do lado do governo e, este, a soldo da Ângela!
- Assim? Sem mais nem menos? Nem está em cima do muro?
- Já lhe disse que em cima do muro está quem anda atarantado, que sabe que se não decidir acabará por ou optar ou cair...
- E aquela outra carta que foi assinada por um mar de gente?
- É uma carta diferente!
- É uma carta de quem já tomou opção?
- Uns sim, outros não. Há gente que assinou a carta para poder explicar que é preciso que continue o muro entre ricos e pobres, com eles lá em cima a clamar que têm toda a razão para lá estar e que os ricos terão de se apiedar! Mas o muro vai-se estreitando...
- Não tem então razão Saramago quando afirma a impossibilidade de esse muro cair!
- Saramago escrevia para desassossegar!
- Desassossegou-o!
- Sim, há muito que estou do lado de cá do muro!

O velho sorriu e o cão parecia que também sorria. Todas as caras da esplanada estavam viradas para nós. Olhavam-nos aflitas, do alto do muro sem saber o que escreveriam a Ângela Merkel. Levantei-me e despedi-me com um "Até mais ver" ao que ele retorquiu "Dia 14 é que vai ser", e fui-me interrogando-me se ainda muita gente iria ficar em cima do muro entre opressores e oprimidos... a "Greve Geral" iria dar o sinal.