25 novembro, 2012

Poesia (uma por dia) - 3


INQUIETANTES DIAS SEM MEMÓRIA...
Inquietantes os dias sem memória
Como se o magma em que se despenham
Fosse apenas mar de sargaços.

E o sol que das cigarras tem o canto
Fossem pingos de chuva. Gelados.
E as bocas fossem apenas grito sufocado. E o cântico
Vazio das almas saturadas...

Ou fossem vãos desertos
Das portas...

Caminhamos injustiças como quem apascenta
Descuidados rumores da fome. E (des)esperamos
Que nesta auréola de frio escorra o sémen
Das horas. E germine a vibração do tempo...

Incertas as praças. Prenhes embora de couraçados.
E auroras faiscantes...

Lá longe o farol clama.
Na intermitência das dores. E dos relâmpagos...

17 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Gosto muito!
Uma qualquer resteazinha de bom senso sussurra-me que não pergunte quem usa o pseudónimo de Heretico... eu faço-lhe a vontade! :)

Fernando Santos (Chana) disse...

Excelente poema....
Um abraço

O Puma disse...

Excelente poema

no outro lado do cais

onde o farol clama

Mar Arável disse...

... e assim com relâmpagos

se ilumina o chão

para caminharmos
por sobre as águas

© Piedade Araújo Sol disse...

de vez em quando o heretico sai com um poema cá para fora, sempre muito bom.

mais uma escolha muito bem acertada.

beijo

;)

Observador disse...

Só por um dia?
Não se consegue mais?

Com essa qualidade...
Vá lá, força!

Maria Luisa Adães disse...

Amigo,

Belo poema
deslumbrante poema
linda forma de o escrever...de o dizer, de o sentir.

Me fascinou, junto com sua presença e palavras nos "7degraus".

Por lá, vou procurar responder!

Abraço, Maria Luísa

Anónimo disse...

tudo lindo e profundo
detive me no farol - que recebe as tempestades e que as faz luzes trementes
não mais tão tementes

adorei, Rogério.

Barbara.

Anónimo disse...

envie minhas lembranças ao "mar arável"

por favor.

Barbara.

Graça Sampaio disse...

Muito bom! «Caminhamos injustiças como quem apascenta
Descuidados rumores da fome.» - Muito intenso. E bem duro.

Muito boas escolhas, Rogerito.

Bom domingo.

Janita disse...

Muito belo, inquietante e algo desencantado!
Felizmente, lá longe, ouve-se o grito do farol... A luz dos relâmpagos iluminará o caminho que nos conduzirá a bom porto.
Parabéns ao autor e obrigada a si, Rogério!

Um dia é muito pouco! Não sei o que aconteceu, mas eu não dei pela passagem do poema nº 2.

Beijinhos.

jrd disse...

A luz que se faz anunciar neste belo poema vai iluminar-nos a rota.

Abraço

Lídia Borges disse...


Desencanto:"E o cântico
Vazio das almas saturadas...
"Incertas as praças" nas raízes do porvir. E, apesar disso, apesar dos "vãos desertos
Das portas"
as portas entreabertas deixando passar a claridade de um "farol que clama".

Um poema a confirmar a excelência de um dizer atual, atuante...

Um beijo

Hanaé Pais disse...

O farol a aguardar, aguardar...
As portas abertas, estupidamente desertas.
O mar de sargaços, sufucado.
O barco a navegar em águas serenas, plenas.
Os relâmpagos iluminam o caminho de quem caminha sobre as àguas - Buda.(sozinho)
O vazio das almas saturadas...
E um "novo" cântico...

Muito triste e comovente, como a história de uma vida que leio de uma forma tão transparente.
(mas não deixa de ser um belo poema)

heretico disse...

grato, meu caro Rogério.

sensibiza-me a tua gentileza e a tua amizade.

privilégio meu ver o meu "poeminha" publicado no teu blog. honra-me esse facto.

forte abraço

Beatrice disse...

uma boa escolha de um senhor Poeta

Beijo

MARILENE disse...

Parabéns ao autor, que caminha com destreza através dos versos. E a você, pela escolha, sem dúvida baseada, também, no conteúdo do poema. Abraços