30 novembro, 2012

Poesia (uma por dia) - 7


Recomeço. 
Pego na flor de linho como se fosse um pequeno pedaço de céu, e sacio-me na sua vontade de ser, manto ou véu, o mais fino pano sob o manjar dos deuses. Olho-me para dentro, seguro firmemente nas pontas desfiadas dos dias iguais, detenho-me nos nós lenhosos e nos sarilhos do fio, e recomeço, de lágrimas pregadas na saia e de fuso na mão, sem medo de picar os dedos, fiando e bordando o tanto que me falta. Para me amparar dos cansaços, trago o pólen colhido no silêncio das serras, no canto dos rios mansos, no gemido da terra quente, na resina viva das raízes levantadas ao vento e na festa louca das cigarras. Dentro do meu tear serei colmeia, onde as palavras se adoçam, as feridas sempre saram, e a luz não desiste de enxergar melhor o mundo. 
Recomeço. 
Entrego aos deuses os meus gestos pequenos, de mãos a crescerem no amor das abelhas, retalhos de paisagem cravada na alma. Só eles sabem o que em mim valerá a pena, um dia, fazer-se poema. 
Maria João / Pequenos detalhes