04 dezembro, 2012

No "Público", hoje

(texto não editado on-line)
"Os congressos do PCP são congressos diferentes. Esta apreciação não é fruto de uma ligeira apreciação voyeurista da política, nem está imbuída de preconceitos anticomunistas primários. É fruto de observação do que é a realidade política portuguesa e essa permite afirmá-lo. Os congressos do PCP são diferentes, não só porque o que se passa na sala é importante, nem apenas porque os discursos são verdadeiramente políticos e programáticos, mas também porque o PCP é um partido diferente.

Todavia, essa diferença é feita de evolução e o PCP que sai do XIX congresso não é o PCP que chegou a Almada na sexta-feira, e muito menos o PCP de há uma ou de há duas décadas. Mais: o PCP pode até ser considerado um partido a anos-luz de diferença do que foi no passado. É hoje um partido que mantém toda a identidade e simbologia comunista, marxista-leninista, a sua matriz revolucionária, a sua natureza de classe e a sua atitude de vanguarda da classe operária e dos trabalhadores. 

Mantém as suas características também de partido profundamente pragmático, que está atento à sua realidade envolvente para nela sobreviver e, se possível, se reforçar e crescer. É essa mesma necessidade de adaptação e sobrevivência que leva o PCP à mudança na continuidade que o tem caracterizado. 

O PCP que sai de Almada é diferente na composição da sua direcção. Na cerca de centena e meia de pessoas que compõem o comité central, trinta são estreantes. É claro que são comunistas. É evidente que acreditam no ideário do partido em que militam. Caso contrário, estariam noutro partido ou em nenhum. Mas são novos dirigentes. Aliás, o PCP é o partido que mais tem renovado a sua direcção nos últimos anos. Renovado e rejuvenescido. O comité central tem uma média de idades de 47 anos, fruto até da sangria de quadros da geração anterior, dos que eram jovens adultos no 25 de Abril, que abandonaram o PCP nas décadas de oitenta e de noventa do século XX.

E se ao nível do que são os órgãos executivos do comité central, como a comissão política e o secretariado, neste congresso a composição se manteve e há apenas uma estreia em cada um deles, a verdade é que o PCP é talvez dos partidos que mais têm renovado os dirigentes ao longo dos anos e que mais pessoas novas têm integrado nas direcções. 

As mudanças não se ficam, porém, ao nível das pessoas que ocupam os lugares de poder interno. Elas acontecem também ao nível da proposta política conjuntural que o PCP defende. Ou seja, se não muda o objectivo último de partido comunista revolucionário que acredita na bondade da implantação de uma sociedade sem classes e sem exploração, o pragmatismo do PCP fá-lo adaptar a sua utopia à realidade do país. E aqui a singularidade do PCP diferencia-o do que são os outros partidos, quer os partidos burgueses e liberais, como o PS, o PSD e o CDS, quer do BE, partido que, sendo reformista e já não revolucionário, obedece, tal como o PCP, a uma lógica colectiva e não-personalizada. 

É evidente, até para os mais distraídos, a diferença entre o PCP e o PS, o PSD e o CDS, em mais que não seja na diferença de posição face ao Memorando de Entendimento com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional que viabiliza os empréstimos financeiros que Portugal recebe desde há um ano. 

 Mas, neste congresso, ficou claro, nos discursos e nos documentos aprovados, a diferença de posição entre o PCP e o BE em relação à União Europeia e à união monetária. E não apenas pela crítica e recusa do federalismo, que o PCP sempre rejeitou e que o BE defende. Em relação à união monetária, é menos perceptível a diferença, mas ela existe. Enquanto o BE tem uma posição oficial – ainda que haja na sua direcção quem pense diferente - que Portugal não deve nem pode sair do euro, o PCP não é afirmativo na defesa da manutenção de Portugal no euro. Mas a posição que saí do congresso de Almada é a de que não haja um abandono inconsequente do euro por Portugal. Foi isso que foi dito no palco do Pavilhão Cidade de Almada e é isso que está nos documentos aprovados. 

Uma posição que mostra como o PCP é um partido pragmático que tempera a convicção e os princípios com a realidade do país. E que é uma evolução em relação à rejeição pura e simples do euro e da União Europeia que o PCP defendeu no passado e que ainda existe em alguns dos seus dirigentes, assim como em partidos comunistas como o KKE, o partido comunista neoestalinista dirigido por Aleka Papariga."
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São José Almeida, jornalista do "Público"

NOTA PÓS-EDIÇÃO: Foram introduzidos sublinhados meus, pois a extensão do texto podia levar (e levou) a conclusões apressadas sobre o conteúdo e sentido do texto.  

9 comentários:

  1. Às vezes concordo com o que esta jornalista escreve...

    Beijo.

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  2. Viva Senhora D.São José Almeida! Como vai? Em primeiro lugar devo dizer-lhe que o PCP que saiu de Almada é exatamente o mesmo que para lá entrou. Penso que muita gente partilhará esta minha opinião. Ao que parece a Dona São não. Talvez seja apenas um problema pessoal.Quem os não tem?
    Olhe que essa de sobrevivência faz-me lembrar os anos 20,30,40 e até 50 ou 60. Só para recordar. Em 1921 um grupo de 11 ou 12 da Federação das Juventudes Comunistas vai "dentro" por andar a colar cartazes ou a distribuir propaganda, no 1º de Setembro. Um deles, José de Sousa, acompanhado de um camarada,vem para aqui,para o Forte de S.Julião da Barra,os outros para o Limoeiro. Depois do episódio da "camioneta fantasma" e "ipso facto" são libertados.E não vou falar do Tarrafal,de Peniche, das deportação para as ilhas, nem da António Maria Cardoso e das mortes que saíram à rua ou ao campo. Aí poder-se-ia falar de sobrevivência.
    Mas, problemas pessoais, quem os não tem?
    Vem a propósito lembrar o conceito "estalinismo",por si referido. Saberá o que é, ou melhor, aquilo que querem que saiba? Domenico Losurdo, professor e filósofo italiano já dissertou longamente sobre essa temática, assim como pensadores russos, como por exemplo Mikhail Kilev.
    Apodaria de "estalinista" toda a ação actual desenvolvida pelos EUA,Israel e seus satélites (União Europeia incluída), face a países da América Latina, do Próximo e Médio Oriente. Como interpreta a existência de um "Africa Com"?
    O emprego de palavras e conceitos é sempre revelador.
    Senhora D.São José Almeida, a senhora preocupa-me. Utilize o Público, o confessionário, um psicanalista, mas partilhe francamente os seus problemas.
    Nós estamos aqui para ajudá-la.

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  3. Eu gostei muito do artigo... sou muito "novata" nestas apreciações, mas considero-o paradigmático em termos de isenção jornalística...

    Abraço!

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  4. Também li o artigo e acho que um partido tal como uma pessoa procura sempre adaptar-se aos contextos embora na essência permaneça fiel aos seus princípios!

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  5. Devo dizer que também gosto do artigo.
    O que não quer dizer que retire aquilo que escrevi. Os dois conceitos que foquei, melhor, a utilização dos conceitos "sobrevivencia" e "estalinismo" desfocam a realidade.
    Quanto ao valor do texto jornalístico, que não foi lido à pressa, ele parece-me ser uma análise bastante objectiva do que foi o Congresso, embora o significado global entre em choque com os referidos conceitos.
    No contexto dos textos jornalísticos que li sobre o evento ele é um exemplo de isenção.
    Para terminar devo dizer que o meu estilo acutilante pode ser um problema pessoal.
    "Vale!"

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  6. O confronto de perspectivas e de pontos de vista só enriquece o debate.

    O passado (politico, social, histórico) tem de funcionar como pecúlio experiencial, reservas de conhecimento disponíveis para análise de modo a que a construção do futuro assente em alicerces fortes e verdadeiramente estruturantes. O Homem deve ser, em qualquer circunstância, o valor mais alto a defender.

    Beijo

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  7. Mal vai quem não entende que a estaticidade leva ao imobilismo.
    O mundo continua dinâmico, cada vez mais.

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