20 dezembro, 2012

Poesia (uma por dia) - 21


O Natal de Cristo

Verbe incréé, source féconde
De justice et de liberté!
Parole qui guéris le monde,
Rayon vivant de vérité!

Delamartine, Harm.

I.

O César disse do alto do seu trono:
'Pereça a liberdade!
Quero contar os homens que há na terra,
Que é a minha humanidade.'
E, cabeça a cabeça, como reses,
As gentes são contadas.
Pro-cônsules e reis fazem resenha
Das escravas manadas,
Para mandar a seu senhor de todos
Que, um pé na Águia romana,
Com o outro oprime o mundo. A isto chegará
A vil progénie humana.

II.

E era noite em Belém, cidade ilustre
Da vencida Judeia
Que a domada cabeça já não cing
e Com a palma idumeia:
Dois aflitos e pobres peregrinos
Cansados vêm chegando
Aos tristes muros, a cumprir do César
O imperioso bando...
Tarde chegaram; já não há poisadas.
Que importa que eles venham
Da estirpe de Jessé, e o sangue régio
Em suas veias tenham?
Na geral servidão só uma avulta
Distinção - a riqueza;
Na corrupção geral só uma avilta
Degradação - pobreza.
Os filhos de David foram coitar-se
No presepe entre o gado,
E dos animais brutos receberam
Amparo e gasalhado.

III.

E ali nasceu Jesus... ali a eterna,
Imensa Magestade
Apareceu no mundo - ali começa
A nova liberdade.
(...)
Almeida Garrett, Flores sem Fruto