23 setembro, 2010

Da minha janela - 1

Contrariamente ao que vulgarmente se pensa, as janelas não servem à contemplação. Nem queiram saber o que é possível ver de uma janela. O que nos diz uma rua, uma praceta, mil telhados e a sarjeta. Como nos fala uma trepadeira, o que nos canta uma árvore e como nos sussurra a palmeira. Tenho tudo isto e mais um rio que me passa diante do pensamento e que raramente transborda as margens físicas, de tão acalmado correr. No meu pensamento não é assim. Frequentemente me inunda o sonho e, embarcando nele, chego muito para lá do horizonte com trajes de namban-jin. Atravessa-o uma ponte que, como diz a canção, é uma passagem para a outra margem. A margem esquerda. O lado certo da vida que se vê desta minha janela e onde estão as minhas origens de coração.
Dedico este post a quem me pintou lugares de infância, um amigo que reencontrei hoje (os amigos não se descobrem, reencontram-se) e que, por minha inveja, assumiu as tarefas de "Pintar a palavra, escrever a pintura."